4 de fev. de 2010

LAGOA DOS MEUS VERDES ANOS E EDUCAÇÃO

1.LAGOA REVIGORADA –– A Lagoa Rodrigo de Freitas, no meu tempo de garoto, tinha águas limpas cheias de peixes, manguezais, uma praia, várias ilhotas e muito esporte. Dos dois lados do prolongamento do eixo da Rua Montenegro sobre a Lagoa, entre a água e a calçada, havia uma larga faixa de areia branca, com muitas conchas - mas não tantas que atrapalhassem nossos jogos de futebol, disputados nas manhãs dos fins de semana. Os times eram o meu Grêmio Ipanema (da turma da Alberto de Campos, que eu frequentava), o Nacional ( da garotada da Sadock de Sá e Renato Tavares) e o Superball (da beira da Lagoa, perto da Joana Angélica, onde morava a família Moreira Leite, dona do time). Jogava-se também voleibol na areia em frente ao Shangri-lá (atual Bar Lagoa) e me lembro do Clube Tabajaras, no qual brilhava o Jonjoca, meu querido e inesquecível amigo, mais tarde um craque do Fluminense no esporte da rede. E ainda havia o remo, o iatismo, os pioneiros do esqui aquático, uma infinidade de opções. Isso, sem contar que a “geral” do estádio do Flamengo acabava em cima das suas águas e nos dias de jogo havia uma turma de canoa, encarregada de pegar as bolas chutadas para lá. Podia-se nadar sem problemas na Lagoa, só evitando pisar no desagradável fundo lodoso e nossa grande proeza era a travessia da Montenegro ou da Joana Angélica até a curva do Sacopã, onde hoje está o remo do Botafogo. Ali havia um ótimo restaurante, frequentado pelos meus pais, que servia o melhor filé da minha infância - encimado por uma rodela de manteiga com ervas que ia derretendo lascivamente - e acompanhado por batatas fritas crocantes e douradas. Na Lagoa, pescávamos de caniço e tarrafa ou caçávamos peixes e caranguejos simplesmente deixando um jacá submerso no raso durante algumas semanas, esperando que nossas vítimas lá se entocasssem e de repente puxando-o, correndo, até a areia. Jacá era um grande cesto com tampa, tecido de fibras vegetais grossas, muito usado para transportar verduras (nos bondes taiobas e bagageiros) das hortas para as feiras-livres. Tainhas, savelhas, mamarreis, carás e paratis eram os peixes mais abundantes, assim como os guaiamuns e aratus apareciam como os crustáceos mais comuns. Aves, que eu já citei em blog anterior, também não faltavam. Lá para os lados do Jardim de Alah, em certos dias, a pesca de centenas de tainhas com tarrafas era um acontecimento festivo. À época o Jardim de Alah era muito bem cuidado, com grama e canteiros de flores. Pouco depois do Canal, algumas ilhotas habitadas, com “tendinhas”, onde - diziam as torcidas adversárias - alguns jogadores do Flamengo, fugidos da concentração, tomavam “umas e outras” na véspera dos jogos (especialmente o Vevé, um ponta-esquerda espetacular, do tri de 1944). Quase em frente ao Canal ficava a ilha do Caiçaras, já com suas primeiras construções. Obra de alguns pioneiros de Ipanema, como o avô materno do Marcos Candau, o jornalista Jarbas dos Aymorés Carvalho, sócio n° 2 da ABI (o n° 1 era o famoso Herbert Moses). Na fundação, em 1931, Jarbas foi quem propôs o nome Caiçaras para o Clube, em alusão aos habitantes de nosso litoral. Sua filha, Dona Ena, contava ao filho Marcos que na época a turma jovem ia a nado até a ilha que, antes dos muitos aterros, ficava bem mais afastada do que é hoje o "continente". Depois de muitas incursões, tomaram posse da ilha e lá instalaram uma tenda de lona que foi a primeira sede do clube Caiçaras, hoje uma potência da vida social da zona sul. Tudo isso me foi contado pelo Marcos, que morava e estudava na Suiça (Genebra), até que voltou nos anos 50, para fazer o curso colegial no Mello e Souza. Lembro-me de nosso primeiro encontro, na Alberto de Campos: Marcos montado numa bicicleta marca RENA, cheia de mudanças, sofisticadíssima para nós, nativos, que conversávamos com ele e nos contentávamos com uma simples Monark ou a minha pobre Svalan contrapedal. Já visualizando um novo craque para o Grêmio Ipanema, perguntamos se Marcos jogava futebol e ficamos embasbacados quando declarou – com espantosa naturalidade - que seu esporte favorito, que ele praticava habitualmente na Suiça, era o ciclismo ! No País em que só se jogava futebol, aquilo soou como a resposta de um marciano. Eu até compreendi, por causa do Velo Esportivo Helênico, clube de ciclismo do qual meu pai (como bom europeu) era sócio e que tinha sede no sobrado da Padaria das Famílias, na Visconde de Pirajá 112, ao lado do Café e Bar Ipanema Só muito tempo depois todos presentes perceberiam que Marcos e a Suiça é que tinham razão e que a nossa monocultura futebolística era - e ainda é, mas agora amenizada pela ação do COB - um grande equívoco de País subdesenvolvido, de poucas oportunidades. Claro que a Lagoa também servia para que andássemos de bicicleta, como gostava o Marcos, além de apresentar uma atração imbatível: os pedalinhos, que ficavam junto a um hidroavião, estacionados entre as ruas Henrique Dummont e Anibal de Mendonça. O dono dos pedalinhos, Herbert Çukurs, era aviador letão e seu filho e ajudante se chamava Gunnar. Faziam voos e alugavam os pedalinhos. Pôr do sol, pedalinho, Corcovado, maravilha ! Alegria de todos nós, um dia os pedalinhos deixaram de funcionar, porque seu dono sumiu, depois de acusado de crimes de guerra. Assim era, em pinceladas superficiais, a minha Lagoa - mas ainda há muito mais a contar. Agora, dizem que há sinais de recuperação daquela jóia da qual usufruí, depois de mais de meio século de abandono. Tomara ! Quantas gerações (coitadas !) deixaram de se aproveitar daquela maravilha... A Lagoa dos anos 40 e início dos 50, que a minha geração conheceu e frequentou, era uma festa para muitos gostos ! 2.EDUCAÇÃO VISTA POR UM ENGENHEIRO – Meu colega Harald Hellmuth mandou-me um interessante texto sobre Educação, a qual deveria ser, idealmente, tema rotineiro do cidadão comum brasileiro. Eis seu ensaio: “O assunto educação me faz lembrar uma metáfora de Ortega: De um brilhante só podemos ver sem deformação uma faceta de cada vez; outras estarão sempre deformadas e a maioria não está nem sequer visível. Educação é um assunto sempre atual e sempre desconcertante. Educação e sistemas de educação não saem da "ordem do dia", da agenda da discussão pública. A faceta mais fácil de perceber é a da alfabetização. Um cidadão analfabeto, com raras exceções, está condenado a um tipo velado de escravidão. Não terá aptidões para um trabalho que lhe propicie uma vida com bom nível de conforto. A Revolução Industrial exigiu a alfabetização. Mas só a capacidade de ler e escrever já não é suficiente para o progresso individual e familiar. Por isso insisto que os funcionários do meu condomínio terminem o segundo grau: Quando fui síndico, consegui motivar dois, apoiando um com uma bolsa; agora mobilizamos um terceiro. Há os casos de reticência por falta de auto-confiança. A rigor, já temos nesta primeira abordagem mais de uma faceta. Faz pouco tempo, concordei com uma senhora quando ela afirmou, referindo-se aos filhos casados, que a educação nunca termina. A família evidentemente é uma faceta da educação com ligações a muitas outras, inclusive a da educação - ou liderança - pelo exemplo. Qual é o objetivo da educação? Trata-se de uma questão milenar. Envolve capacitação e comportamento. Não faltaram as tentativas de bitolar os comportamentos, supostamente para garantir a coesão da sociedade. Religiões serviram para este objetivo; o ser invisível que tudo vê e castiga foi uma invenção genial. Durante centenas de gerações, cabeças lumimosas e outras torturadas se esforçaram para "comprovar" a sua existência. Alguma culturas se fundamentaram em preceitos da experiência de comportamentos necessários, percebidos por cidadãos clarividentes: Os filósofos gregos e Confúcio são exemplos. Felipe contratou Aristóteles para educar Alexandre, pagando com a libertação da cidade natal do mestre. Educação sempre teve valor e preço. E também resultados: Alexandre construiu a biblioteca de Alexandria, mais tarde queimada por ordem de cristãos romanos. Conhecimento no domínio do povo, ou de externos a círculos de poder, de longa data foi considerado perigoso. O enciclopedista Diderot também foi reprimido. Mas o ser humano sempre continua guloso por uma "mordida na maçã do conhecimento", como expressa uma das metáforas fundadoras da cultura ocidental.........e sempre que morde, se percebe depois mais perturbado ainda. Freud andou redescobrindo o que a mitologia grega já expressava, dando-se conta que a sua educação....modelar da burguesia culta de sua época....era a causadora de histeria. Galileu, Copérnico, Darwin e Newton são exemplos do aprendizado pelo próprio cidadão, através da observação ingênua. De certa forma, os citados se auto-educaram. Eu disse aos meus filhos que eles têm o caminho da continuação de sua educação em suas próprias mãos. Parece contradizer algumas observações anteriores; fato é que um brilhante tem faces opostas, necessárias para compor o brilhante. A pergunta sobre os objetivos da educação não está respondida com clareza ainda. Uma resposta parcial está na capacitação para a continuação da própria educação, num processo de aperfeiçoamento contínuo. Como a capacitação é fundamentada em conhecimento, a acumulação de conhecimentos é uma parte indispensável do processo de educação....que em princípio não tem fim. Habilidades e treinamento perfazem uma outra parte. Sem esta componente não há desempenho. Isto vale tanto na área militar, como nos esportes e na produção. De longa data, sabe-se que o desempenho resulta da composição de capacitação com comportamento; a própria capacitação é função de comportamento. Por esta razão, características comportamentais estão presentes nos programas de 'treinamento" das organizações. Os comportamentos se referem à percepção da validade das ações, respondem à questão "Como?" e envolvem dever e as instituições - os "não pode" - informais e formais. E para que toda esta trama serve ? Se destina à sobrevivência do cidadão, das organizações, da sociedade e, segundo a percepção mais recente, da Humanidade, através do esforço de sobrevivência de cada um. Esta resposta corresponde a uma visão liberal da condição humana, que dá crédito ao cidadão por procurar contribuições construtivas, reconhecendo a recíproca dependência no contexto em que vive, ou seja, de que o cidadão age percebendo Responsabilidade. A visão oposta à visão liberal é a visão dogmática. A experiência histórica tem demonstrado que resulta em desempenhos inferiores, quando não tem conseqüências catastróficas. Como é complexa a estrutura do brilhante!" HARALD HELLMUTH

30 de jan. de 2010

KISSINGER, ARDUINO E DESEMPREGO

1. KISSINGER JOGOU PELO MOBRAL – Certa manhã, ao chegar à sede do MOBRAL, pedi a minha secretária, Márcia Campos, que ligasse para Henry Kissinger em Washington. Márcia ainda ficou em dúvida se era mesmo para o Secretário de Estado norte-americano. Confirmei e minutos depois Márcia informou-me que Kissinger estava muito ocupado, na Casa Branca, em uma reunião na qual os dirigentes de Egito e Israel iniciavam um entendimento de paz. Márcia deixou recado para o Secretário retornar a ligação. Meia hora depois, telefonema de Washington. Era Dr. Ballantine, assessor de Kissinger que trabalhara no Brasil pela USAID e havia negociado comigo inúmeros convênios e contratos, quando eu dirigia o Centro Nacional de Recursos Humanos (CNRH) do IPEA/Ministério do Planejamento. Expliquei-lhe que queria a interferência de Kissinger junto à TIME WARNER, dona do New York Cosmos, que acabara de contratar Pelé, para que deixasse o craque jogar pelo Fluminense contra o Bayern de Munique no Maracanã, em partida para promover o MOBRAL. Pelé prometera a nossa Relações Públicas, a atriz Lídia Matos, que jogaria, mas na noite anterior ao episódio narrado, faltando 3 dias para o evento, alegou que o Cosmos o proibira de participar. Não encontrei alternativa além da interferência de Kissinger, admirador do futebol brasileiro e promotor da ida de Pelé para o Cosmos. Ballantine falou com seu chefe, que ligou para a TIME WARNER, explicando a importância do MOBRAL e pedindo a anuência do Cosmos. Ballantine ligou-me mais tarde, desapontado, dizendo que o Cosmos jamais impedira Pelé de jogar. Pelé contou-lhes que o pedido para não atuar havia sido de Ney Braga, então Ministro da Educação. Coisas de político, administrando o seu pequeno poder. Pelé não jogou, mas o Maracanã viveu uma noite espetacular, em 10 de junho de 1975, com quase 100 mil espectadores vibrando com a vitória da “máquina” (de Rivelino, Paulo César Caju, Félix, Toninho, Marco Antônio, Mário Sérgio, Cafuringa etc) por 1 x 0, contra o “timaço” de Beckenbauer, Gerd Muller, Sepp Meier etc. Francisco Horta, Presidente do Fluminense, assistiu ao jogo ao lado do ex-Presidente Médici (com seu radinho de pilha) e de Heleno Nunes, Presidente da CBF. Nessa partida, pela primeira vez, uma empresa – a DELFIN CADERNETA DE POUPANÇA, de Ronald Levinson, grande benemérito do MOBRAL - comprou 60 mil ingressos de futebol para distribuir aos seus clientes. E também pela primeira vez um clube brasileiro pode jogar com a propaganda de uma instituição na camisa: era o nome do MOBRAL, nas costas dos craques tricolores ! Pioneirismo e criatividade...Reveja o jogo em http://www.youtube.com/watch?v=Uu1k-KoACkY
2. LULA EMPREGA MAIS QUE FHC – A criação de 8.716.000 empregos durante o Governo Lula - com a média de quase 1.250.000 por ano - supera amplamente os resultados de seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso, em cujos 2 mandatos na Presidência foram gerados apenas 796.000 postos de trabalho – média de 100 mil por ano. Nos 5 primeiros anos da gestão FHC houve sempre mais demissões do que admissões: o País perdeu 129.339 empregos formais em 1995; 271.298 em 1996; 35.731 em 1997; 581.753 em 1998 e 196.001 em 1999. Só em 2000 a situação se inverteu e finalmente os saldos passaram ao terreno positivo, com a criação de 657.596 empregos; em 2001 foram gerados 591.058 e em 2002 mais 762.414. O Governo FHC adotou uma série de medidas na área econômica, sem o adequado respaldo do planejamento, provocando o caos no mercado de trabalho brasileiro. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra Domiciliar (PNAD) do IBGE, de uma população ocupada de 69.628.608 trabalhadores, em 1995, passamos a 68.040.206 em 1996. Queda de 1,6 milhão de empregos em apenas um ano ! Desde FHC o Brasil mantém uma taxa de desemprego muito elevada, entre 8 e 10%, que revela problemas estruturais graves.
3. IPANEMA CRIATIVA –O após-guerra foi uma época de grande efervescência econômica, política e cultural. Ipanema e alguns outros bairros cariocas foram privilegiados naqueles anos dourados, em que a criatividade e a inovação floresceram com vigor. E quem lá morava se beneficiou muito daquele ambiente estimulante. Na zona sul – abrangendo Copacabana, Leblon, Botafogo e Laranjeiras – assim como na zona norte, da Tijuca, Grajau e adjacências, havia ótimos colégios e se podia obter uma boa formação educacional, além de estabelecer amizades e contacto permanente com outros jovens inteligentes e cultos, ansiosos por mudanças, fascinados pelo novo e pelas oportunidades que paz mundial trazia. Lembrei-me disso tudo quando assistia a um programa da SPORTV sobre os primórdios do surfe no Brasil, desenvolvido exatamente nas praias cariocas. Como era de esperar, lá pelas tantas, apareceu o pioneiro Arduino Colasanti, que deu seu lúcido depoimento, mas não disse tudo, por causa de sua modéstia. Arduino, nascido na Itália, veio para o Brasil com 11 anos e foi meu colega no Mello e Souza. Éramos da mesma série, mas de turmas diferentes. Culto, inteligente, sonhador, Arduino chegou a cursar a Escola Nacional de Engenharia mas “trancou matrícula” para dedicar-se às atividades de que gostava. Foi pioneiro do surfe, da pesca submarina e do mergulho profissional no Brasil. Por ser um galã nato, atuou em vários filmes. Ele e sua irmã Marina Colasanti, escritora renomada, moravam com o pai (Manfredo) e a tia, a grande cantora lírica italiana Gabriella Besanzoni Lage, no amplo palacete do Jardim Botânico que hoje é conhecido como Parque Lage. Mas Arduino vivia no Arpoador, ia muito a Angra dos Reis, Cabo Frio e onde houvesse um mar com ondas e peixes a desafiá-lo. Na matéria da TV apareceu também a Fernanda, dona da loja “FERNANDA DOCES”, no Barrashoping, que foi a primeira mulher a praticar surfe no Brasil e que ganhou sua prancha de madeirite do bom Arduino. Meu colega inovou no surfe e brilhou na pesca submarina, na qual representou o Brasil em dois Campeonatos Mundiais. Em 1959, ao voltar de Malta, do Campeonato Mundial de Pesca Submarina, em que o Brasil foi vice-campeão, Arduino fez escala em Paris onde eu também estava, jogando “La Petite Coupe du Monde” pela Seleção Brasileira de Voleibol. Durante três dias consecutivos fomos juntos ao Museu do Louvre, conhecer aquelas obras maravilhosas que lá estão, a consagrar o senso estético dos seres humanos. Surfe, bossa nova, futevolei, moda de praia...Criações de gente que viveu em um Rio de Janeiro glorioso... na Cidade Maravilhosa...
A teoria da localização, muito utilizada pelos empresários, permite tomar decisões sobre onde montar seu negócio, seja uma siderúrgica ou uma refinaria, uma lanchonete ou um restaurante, uma escola ou um posto de saúde. Dever-se-ia formular e explicitar, também, uma outra teoria da localização, decisiva para as pessoas: onde fixar residência, para ter uma vida feliz e plena de oportunidades...

26 de jan. de 2010

ESTATÍSTICAS VOAM INCERTAS COM MUITO VINHO

A REALIDADE DA CRIAÇÃO DE EMPREGOS NO ATUAL GOVERNO – Durante o Governo Lula, de 1/1/2003 até 31/12/2009, foram criados 8.716.082 empregos formais no Brasil. Essa é a realidade quando consultamos as estatísticas do CAGED, coletadas pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) e publicadas no site do Ministério (http://www.mte.gov.br/). O CAGED mostra que em 2003 foram gerados 645.433 postos de trabalho; segue-se 2004, com 1.523.276; depois 2005, com 1.253.981; em 2006 foram 1.228.686; em 2007, 1.617.392; em 2008, 1.452.204, completando-se a série com a cifra de 2009, quando surgiram 995.110 postos de trabalho. Considerando que Lula prometeu criar 10 milhões de empregos, só nos seus 4 primeiros anos de mandato, verifica-se que sua atuação decepcionou nesse quesito. Daí, talvez, a insistência das fontes oficiais em divulgar cifras acima da realidade. Quem tiver curiosidade, abra o site oficial do MTE, clique em CAGED (no canto direito, ao alto) que aparecerá a criação de empregos nos últimos 14 meses. Clique a seguir em “avançar” e surgirão as estatísticas anuais, desde 2003, aqui transcritas. Mas vá rápido, antes que a página caduque... 2. AVES E GENTES – Albert Einstein veio ao Rio de Janeiro em 1925 e ficou fascinado com uma ave muito carioca. Quando visitou o Museu Nacional, Einstein fez muitas indagações ao zoólogo Alípio de Miranda Ribeiro, avô de Marisa, minha mulher, expressando seu entusiasmo pelo voo sereno da tal ave, que aproveitava as correntes ascendentes e planava por longos períodos. Einstein ainda não se confessava “flamenguista”, mas o objeto de sua admiração era o humilde urubu, cujas evoluções o visitante afirmou ter ficado a observar por muito tempo... Coisas do físico genial, vivendo em um mundo também encantado com a aviação, que apenas engatinhava. Mais feliz que Einstein, além dos urubus - que também caçam carniças aqui pela Barra da Tijuca - posso apreciar diariamente as aventuras de várias outras aves de aparência e hábitos bem mais agradáveis. Moro entre o mar e a lagoa e o espaço aéreo sobre minha casa é a rota das aves que ocupam o território delimitado pelas Ilhas Tijucas e as lagoas da Barra. A mim, fascinam-me especialmente os biguás, aqueles cor de grafite, de pescoço comprido, que voam em bandos numerosos, adotando geralmente a formação em V. Aprendi com Gabriela Machado André ( no site http://www.oeco.com.br/) que em virtude da intensa urbanização da Barra da Tijuca, em meados da década de 70, o biguá foi expulso das proximidades das águas doces, restando-lhe colonizar e reproduzir-se nas Ilhas Tijucas, a 4 km da costa do bairro. Trata-se da única ocorrência, no litoral brasileiro, de biguás aninhando em uma ilha. E mais: segundo a autora, “ao adotar a cercania marítima para aninhar, a colônia – experimental - de biguás ganhou vizinhos diferentes em tamanho e constituição física. Os tesourões, gaivotas e atobás, que também presentes nas ilhas, caçam seus alimentos no mar, mas para isso possuem no bico uma glândula que expele o excesso de salinidade do organismo. Os biguás, por manterem a fisiologia adequada para águas doces, não possuem a glândula de sal: a solução da colônia foi continuar pescando no Canal de Marapendi.” Aliás, é um espetáculo observar a caça de gaivotas e fragatas (de cauda em tesoura, por isso chamadas de tesourões). Fazem voos de observação sobre o mar, localizam os cardumes e de repente mergulham certeiras sobre as presas submersas. São como aquelas pessoas objetivas, que sabem o que querem, para o bem e para o mal, normalmente conseguindo seus intentos. Mas já notei que às vezes confundem águas marítimas e piscinas, que sobrevoam à procura de peixes, tal qual as pessoas que, mesmo objetivas, muitas vezes confundem suas metas. As garças, branquinhas, mais discretas e em menor número, pescam nas águas doces e rasas, encolhendo o pescoço e repentinamente esticando-o e capturando a presa. São oportunistas como algumas pessoas, caladas em relação ao que desejam, sorrateiras e surpreendentes. Já os biguás cativam-me por um outro traço: são ou parecem ser como a maioria de nós, humanos. Voam para lá e para cá, entre a lagoa e a ilha, sem qualquer lógica, como se estivessem sempre à busca de uma satisfação fugidia. Procuram, como nós, aquela felicidade dos versos magistrais de Vicente de Carvalho, poeta parnasiano que também adorava o mar e escreveu:
“só a leve esperança em toda a vida
disfarça a pena de viver, mais nada;
nem é mais a existência resumida
que uma grande esperança malograda.
o eterno sonho da alma desterrada,
sonho que a traz ansiosa e embevecida,
é uma hora feliz, sempre adiada
e que não chega nunca em toda a vida.

essa felicidade que supomos
árvore milagrosa que sonhamos
toda arriada de dourados pomos
existe sim; mas nós não a encontramos,
porque está sempre apenas onde a pomos
e nunca a pomos onde nós estamos”.
3. SELEÇÃO DE VINHOS PORTUGUESES EM 2009 – Um amigo, Carlos Gradiz, teve a gentileza de enviar-me o resultado das muitas provas com os vinhos portugueses - Espumantes, Brancos, Tintos, Rosés e Portos - que realizou, ao longo de 2009, o crítico José António Salvador. Embora o próprio enófilo diga que "nada há de mais subjectivo do que o gosto", sua seleção merece crédito. Trata-se de jornalista consagrado, que escreveu vários livros sobre vinhos. O que me surpreendeu e alegrou muito foi sua escolha do melhor espumante português: o Murganheira Távora-Varosa Touriga Nacional Bruto 2005, que o enófilo assim definiu: “Excepcional. É claramente o melhor espumante português da actualidade. Confirmo-o à medida que o saboreio. Tanto na colheita de 2003 como agora, nesta, de 2005, este espumante revela-se sublime. Rico em aromas frutados e sabores de frescura intensa, apresenta-se com espuma sedosa e persistente.” O motivo da minha alegria é simples: Carlos Gradiz explicou-me que é vinho da região demarcada que engloba a terra de minha mãe – Fonte Arcada, aldeia aos pés da qual está a Barragem do Vilar, com sua ponte romana do século I, no Rio Távora, que dá nome ao espumante vencedor. Saúde e viva Fonte Arcada !

21 de jan. de 2010

GUERRA, CRISE E PERDAS DO TRABALHADOR

1. GUERRA INJUSTA - Ronaldo Ferreira Gomes, morador veterano de Ipanema, trouxe-me à lembrança um episódio muito marcante, ocorrido em nosso bairro durante a II Guerra Mundial. Éramos ainda crianças e naquele dia nos assustamos com o barulho, a gritaria e o movimento inusitado na rua. Vândalos extremistas promoviam o “quebra-quebra” das casas de comércio que pertenciam a imigrantes de países integrantes do “Eixo” (Alemanha, Itália e Japão). Lembro-me bem que meu pai ficou muito entristecido com a destruição do Restaurante Renânia, pertencente a um amigo (o pai da bela Cristina que estudava no Fontainha) e situado no mesmo quarteirão de seu Café e Bar Ipanema (lado par da Visconde de Pirajá, em frente à Praça General Osório). Os baderneiros atacaram igualmente os restaurantes Zeppelin (do lado ímpar da Visconde de Pirajá, entre Garcia d`Ávila e Aníbal de Mendonça) e o Shangri-lá (na Lagoa Rodrigo de Freitas, perto da Montenegro), todos de alemães. Tinturarias de japoneses, bancas de jornal e oficinas de sapateiros pertencentes a modestos italianos também sofreram atentados. A comunidade de Ipanema não aceitou essa covardia contra pessoas trabalhadoras e indefesas, totalmente alheias à política internacional e prestou sua solidariedade aos agredidos. No bairro viviam muitos imigrantes estrangeiros, de várias nacionalidades e credos, sempre em perfeita harmonia, diversos deles ligados por fortes amizades. Em minha casa, por exemplo, havia uma “roda de pôquer” todas as noites, de amigos que formavam uma pacífica Liga das Nações: brasileiros como o potiguar Dr. Álvaro Borges, funcionário da Casa da Moeda; vários portugueses como meu pai Antonio Lopes Corrêa e os senhores Marques e Jucundino (ambos mestres de obras), Paulinho e Príncipe (ambos proprietários de açougues); libaneses como o senhor Nagib, comerciante; japoneses, como o Sr. Nakamura, dono da Tinturaria da Visconde Pirajá; o querido Sr. Adolfo, judeu polonês, que depois de desquitado foi morar em minha casa e era dono da sapataria Renomé; o senhor Gardon, espanhol, dono do Hotel Soto e assim por diante. As escaramuças ocorreram em todo Brasil e muitos estrangeiros foram maltratados e prejudicados. Depois de algum tempo, cessaram os distúrbios, voltou a paz e todos puderam continuar suas vidas. O Renânia ficou no mesmo lugar mas mudou o nome para Jangadeiros e anos depois se instalou na Teixeira de Melo. O Shangri-lá virou Bar Lagoa e continuou à sombra dos belos flamboyants da Rodrigo de Freitas - mas parece que foi a partir daquele dia que seus velhos garçons ficaram mal-humorados para sempre. Vocês sabiam ?
2. CRISE E MERCADO DE TRABALHO BRASILEIRO – Foi terrível o resultado do mercado de trabalho formal em 2009, quando geramos 995 mil empregos em todo ano e precisaríamos de pelo menos 1.600.000 novos postos. Foi o pior resultado desde 2003. Em 2008, já com crise, geramos 1.452.000 empregos, 46% mais que em 2009. Desse modo, muitos jovens que chegaram à idade de trabalhar esbarraram em mais esse obstáculo e caíram no desemprego ou tiveram que se conformar com algum biscate no mercado informal, sem carteira assinada e com salários baixos. Prejudicados por uma educação básica de má qualidade, à qual se seguem cursos de qualificação profissional muito curtos, onde aprendem apenas um arremedo de profissão, tiveram também contra si um mercado de trabalho limitado pelos reflexos da crise internacional e alguns problemas na condução de nossa economia. Dezembro foi pior do que a mais pessimista das previsões. Segundo o CAGED, do Ministério do Trabalho, o Brasil perdeu 415 mil empregos só naquele mês. Considerando que há otimismo em relação à performance econômica do País para 2010, com previsão de 5,2% de crescimento do PIB, conclui-se que o lamentável resultado terá derivado da cautela dos empresários diante do novo salário mínimo, cujos aumentos repetidamente acima da inflação são criticados pelos analistas. Muitas demissões teriam sido preventivas, para que as empresas não assumissem, já agora, compromissos para janeiro de 2010 – mês da revisão salarial – antes de avaliar exatamente como será o novo ano. E talvez janeiro continue adverso, porque os primeiros resultados do nosso comércio externo apontam para uma crescente perda de competitividade internacional em produtos importantes. Ao elevado custo-Brasil, resultado de burocracia excessiva e deficiências de nossa infraestrutura logística, acrescentou-se nos últimos anos um salário-mínimo irrealista. Nosso Governo talvez tenha perdido a noção de limites. O recente Decreto dos Direitos Humanos é prova dessa insensibilidade e pode custar caro nas eleições, pois assustou setores importantes da opinião pública. É claro que se faz um marketing maravilhoso ao fixar o salário mínimo próximo dos 300 dólares mensais, principalmente porque FHC penou, penou e não conseguiu passar dos 100 dólares por mês. O problema é saber se a economia aguenta e se os patrões podem ou estão dispostos a pagá-lo. Talvez tenhamos chegado a essa situação-limite e como o Ministério do Trabalho, neste ano eleitoral, costuma afrouxar a fiscalização em cima da informalidade, estamos diante de uma situação muito difícil, que vai acarretar níveis altos de subemprego. 3.TRABALHADOR PERDE NO FGTS E FAT – A Caixa Econômica, responsável pela administração do Fundo de Garantia de Tempo de Serviço (FGTS), confirmou que pelo segundo ano consecutivo de sua gestão, o dinheiro do trabalhador depositado no FGTS perdeu poder de compra. Nossas contas tiveram remuneração de 3,9% em 2009, enquanto a inflação oficial, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), chegou a 4,3%. O rendimento real foi negativo e o patrimônio pertencente aos trabalhadores brasileiros e ali depositado diminuiu em 0,4%. O mesmo já acontecera em 2008, quando o Fundo rendeu 4,5% e o IPCA atingiu 5,9%, havendo perda real de 1,4% no saldo, sem que qualquer providência fosse tomada. Também o Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), gerenciado pelo Ministério do Trabalho, teve deficit em 2009. O Governo, em relação ao trabalhador brasileiro, dá com uma das mãos e tira com a outra. Cede um pouco, ostensivamente, com banda de música. Mas tira sorrateiramente, oculto na penumbra de regras que o “povão” só perceberá na hora da aposentadoria, quando já será tarde demais.

16 de jan. de 2010

MARKETING HAITIANO NO ANO DO PAC

1. PITIÉ POUR L`HAÏTI – A frase maldita do Cônsul haitiano sobre o catastrófico terremoto - "Foi bom para nós aqui do consulado porque nos dará mais visibilidade (...)" – jamais seria proferida por uma pessoa normal da minha geração, na presença dos mais íntimos ou mesmo a sós. Não é mais assim... Nestes tempos midiáticos, o marketing se tornou, assustadoramente, mais importante que a realidade e propiciou esse tipo imoral de pensamento. Para nós, mortais comuns, a colocação dessa frase, à vista de dezenas de milhares de mortos e centenas de milhares de desabrigados, deve servir como definitivo sinal de alerta. Há cerca de 25 ou 30 anos essa “nova moral” começou a conquistar o Brasil em todos os escalões. Quantos Ministros já não tivemos – sempre incompetentes - que foram escolhidos pelo seu impacto de marketing na opinião pública ? As Pastas da Cultura e do Esporte, então, têm sido agraciadas com fartura por esse tipo relativamente novo de seleção política. Neste ano de eleições gerais no Brasil sempre corremos o risco, “sin duda”, de um “marqueteiro” hábil nos “vender” mais um Presidente “fajuto”. Defrontaremos, com frequência, essa supremacia do imaginário sobre o real, contra a qual devemos nos prevenir. Por agora, solidariedade total aos haitianos e aos nossos soldados heroicos que lá estão ou tombaram com honra...
2. CLUBE DOS SETE TEM PAC DA ÁGUA – A rede de voleibol onde jogo, na Barra da Tijuca, inaugurou seu “chuveirinho”, alimentado por poço e bomba movida a gasolina. Teve até discurso do Guilherme afirmando (mentira, é claro) que “nunca antes, na história desta rede...” A logística da operação foi obra do Clovis - que como bom nordestino sabe a dureza da falta d`água sob o sol inclemente. Até o nosso “vice”, Paulo Bessa, “de molho” por ordem médica, exatamente por exposição ao calor, prestigiou a inauguração. O único preocupado no ato solene era o nosso Ministro da Fazenda, o Zé Carlos, que vai ter que lançar mão de “nossas reservas” (como a Senhora Kirchner, da Casa Rosada) para honrar a pesada dívida...Reflexão que se impõe: devia haver uma lei no Brasil obrigando as autoridades a fornecer água limpa aos frequentadores da praia, sempre que as águas do mar fossem poluídas e impróprias para o banho – o que ocorre(u) certamente por incúria dessas mesmas autoridades. Esporte + sol - água = infarto ou AVC = Lourenço Jorge = despesas adicionais para o SUS. cqd
3. PRAIA DE IPANEMA – O escriba da língua portuguesa que consagrou o uso da expressão “verão senegalesco” copiou-a, certamente, de algum agente colonial francês que conhecia Dacar mas jamais pisara nas terras escaldantes de São Sebastião do Rio de Janeiro. Nada a lamentar, pois temos uma receita infalível e maravilhosa para esse “verão carioca”: a praia. A revista ECONOMIST estima que 630 milhões de terráqueos residam a uma distância máxima de 10 km do mar. Fui, sou e serei sempre parte desses abençoados 10% da Humanidade. Filho de portugueses, ditos “colonizadores-caranguejos”, apegados à costa, herdei-lhes o amor ao cheiro de maresia. Para os lusitanos dos séculos XV e XVI, que promoviam uma globalização pioneira, descobridores de todas as terras e donos dos oceanos - as grandes vias de comunicação e transporte da época - era uma questão de logística, uma visão estratégica bastante racional. Para mim, é antes de tudo um determinismo estético. Das músicas de Tom e Caymmi às marinhas de Guignard, passando pela sua rica paisagem humana, amo e vejo muita beleza em tudo que existe na praia. Um espaço democrático, onde as pessoas se vestem (ou despem ?) da mesma forma e não têm sobrenome - só prenome ou apelido. Você pode estar na barraca ao lado de um banqueiro ou de um favelado; jogar uma partida de voleibol com um general ou um vendedor ambulante, mas estará absolutamente feliz, indiferente às origens de seu vizinho ou parceiro de jogo. É a liberdade, o não-formal, a vida ao natural... é a praia ! Quando comecei a frequentá-la, na década dos 40, Ipanema era muito diferente. Bem, já era linda e cheia de graça como sempre, mas as areias, mais brancas e virgens, faziam aquele barulho característico quando as pisávamos. E abrigavam muitos siris, tatuís e sernambis na faixa molhada além de multidões de joaninhas na parte seca. Havia oásis, com quiosques cobertos de sapê, muitos coqueiros e a vegetação rasteira típica do litoral carioca recobrindo dunas de suave declividade. O Arpoador, uma das principais referências de nossa praia - onde se caçavam baleias com arpões no século XVII – era muito lindo, com mais areia do que hoje e um prédio térreo, cinzento, com uma estação de rádio. Na Vieira Souto, com duas pistas e um canteiro central gramado, pesados bancos de madeira e palmeiras, havia predominância absoluta de casas amplas e luxuosas. Os trajes de banho seriam bizarros para os padrões atuais: os calções masculinos de lã, formato de sunga em tamanho grande, de cores escuras, muito quentes, extremamente incômodos quando molhados (melhor dizendo, encharcados), causadores de assaduras mil; os femininos eram maiôs inteiros, às vezes complementados por saiotes cobrindo a parte superior das pernas, sempre de tecidos pesados e tons escuros. Toucas - geralmente horripilantes - completavam aquela imagem típica dos filmes do cinema mudo. Demorou para passarmos a usar tecidos mais leves e funcionais. Só na década dos 50 chegaram os shorts, as sungas masculinas de nadador e os maiôs femininos de lastex, da Catalina, drapeados, consagrados pela atriz/nadadora Esther Williams e as Misses de todo mundo. Depois vieram os trajes de fustão e outros tecidos, em Ipanema comprados na Casa Alberto, na Futurista ou na Formosinho, para serem fabricados pelas “modistas” – as costureiras mais versáteis da época. Na minha meninice, mesmo na ida à praia, era proibido andar sem camisa nas ruas e obedecíamos cegamente a essa postura municipal, só a tirando ao pisar na areia. Os esportes de praia, além da óbvia natação e do velho remo, eram o futebol, a peteca e o voleibol, coadjuvados pela prática isolada de lutas (livre e capoeira) e exercícios diversos de ginástica (pirâmides humanas e acrobacias como as paradas simples ou em dupla, cambalhotas, saltos-mortais e estrelas). O JORNAL DOS SPORTS promovia torneios de voleibol, sempre de sextetos masculinos ou mistos e o Ipanema Praia Clube - com Isnaldo (vulgo Cabinha), Corrente, Gil (Carneiro de Mendonça) e Rosalvo (gerente do cinema Ipanema, na Praça General Osório) - representava brilhantemente nosso bairro. O futebol de areia começou em Ipanema com um time chamado Atlântico, no qual jogavam o lustroso Misqueti e mais uma vez o Gil, posteriormente grande craque de voleibol e Presidente do Fluminense. O “dono” do Atlântico era o Manoel, gerente da noite do Café e Bar Ipanema (pertencente ao meu pai). Sucederam-se outros clubes pioneiros: AEI (do Dilermando Borges, filho do Dr. Álvaro Borges), Pelicano (da Joana Angélica), Brasil (da familia Fernandes, da Hidro-Electra) e mais tarde o Torino (da família Cabral) e o Lagoa (do Théo Sodré). Joguei nos três últimos. No mar, “pegávamos jacaré” sem ou com prancha, então de madeira (ancestrais do body board e do surfe, surgido em Ipanema) e nadávamos ou boiávamos horas em câmaras de ar de pneus de caminhão, trator ou avião... Quando havia “piscininha” e banco de areia era uma festa para a petizada que estava aprendendo a nadar. Os garotos mais arrojados da Montenegro nadavam para muito além das ondas, até avistar o Pão de Açúcar. Era comum a passagem de arraias de grande tamanho, lentamente, bem na beirinha, assim como cardumes de espécies variadas, caçados avidamente por gaivotas de mergulho certeiro. Quase diariamente, bem cedo, todos ajudavam os pescadores da Colônia do Posto Seis a puxar seu arrastão e quando a coleta era farta, sempre ganhávamos algumas sardinhas como recompensa. Houve um longo período com algo semelhante ao atual “choque de ordem” da Prefeitura e o futebol só podia ser praticado à tarde, em horários definidos. Naquele tempo respeitava-se a autoridade e a proibição perdurou durante anos. O que não era vedado – nem pelos médicos – era pegar sol e dispensar a proteção da barraca. Naquela época, sol fazia bem e protetor solar não existia. Havia, perto do Carnaval, banho de mar à fantasia e no réveillon começavam os rituais de umbanda. Os Postos de Salvamento eram poucos e os “banhistas”, necessariamente excelentes nadadores, não tinham equipamentos auxiliares. No início, suas baleeiras eram movidas a remos e só com muita sorte chegavam ao lugar certo na hora adequada. Logo após a guerra, surgiu um personagem inovador, o Coló, veterano da Força Expedicionária Brasileira (FEB), muito forte e um craque na água, que criou um posto de salvamento de voluntários na Montenegro. Barraca isolada, sinalizada, equipada com bóias, cordas e bandeirinhas, Coló com apito e trajando aqueles cinturões enormes, pelos quais as tais cordas amarradas às bóias passavam em argolas de aço, para serem jogadas aos eventuais afogados e puxadas por nós em um grande mutirão. Alguns comerciantes patrocinavam nosso “pracinha” heroico. Previdente, o posto fazia o treinamento de “botinhos”, salva-vidas infantis e juvenis e eu era um deles, claro ! Ainda menino aprendi as técnicas de salvatagem para valer e ao longo de minha vida consegui ajudar mais de uma dezena de afogados. E sempre me lembrava agradecido do mestre Coló...Durante a guerra, todas as janelas de Ipanema que podiam ser vistas do mar tinham que ficar totalmente tampadas à noite, com um tecido negro opaco, como medida de segurança contra ataques de submarinos inimigos. No dia 8 de maio de 1945, Ipanema acordou bem cedo, às 6 horas da manhã, com os rádios tocando a Marselhesa no volume máximo e foi com um misto de fúria e alegria que nos livramos daqueles panos negros que enevoavam a nossa felicidade. Era o Dia da Vitória, um dos mais emocionantes de nossas vidas. Chegava o após-guerra e o mundo ia mudar dramaticamente. Ipanema inclusive – ou talvez principalmente...

11 de jan. de 2010

FELIZ 2010 COM DEMOCRACIA PLENA

1. REMOÇÃO PARCIAL NÃO FUNCIONA – Os cariocas apoiam decididamente o Prefeito Eduardo Paes em seu plano para remover as favelas das áreas de risco. É a única solução possível para o grave problema. Mas vale recordar as experiências de remoção efetuadas no passado e verificar o que funcionou e o que foi inócuo. Em resumo, sempre que a favela foi removida totalmente e no terreno por ela ocupado foi realizado um empreendimento imobiliário, criado um espaço de lazer para a população ou implantada uma obra pública, o projeto foi um sucesso. Exemplos: Selva de Pedra e Estádio do Flamengo (no lugar da Praia do Pinto), Parques da Catacumba e do Pasmado, Praça e canteiro da CEDAE no Jardim Oceânico (no lugar de favela na beira do canal, aliás removida pelo então Prefeitinho Eduardo Paes). Em sentido contrário, sempre que foram removidas casas e barracos em situação de risco mas continuaram as favelas onde se situavam, os locais da remoção foram posteriormente reocupados e o problema voltou a ser o mesmo ou até pior. Recebi fotos de um leitor deste blog, mostrando as enormes construções irregulares da Rocinha II. Rocinha II é a extensão da favela que se projeta sobre a encosta do lado da Gávea. Todas as construções que existiam daquele lado foram removidas décadas atrás, mas a Rocinha I permaneceu, constituiu seu poder paralelo e promoveu-se a reocupação, sem qualquer restrição. Remoções parciais não funcionaram e não funcionarão, pois não existe capacidade de fiscalização para as mais de mil favelas que tomaram conta da Cidade Maravilhosa.
2. CUSTO-BENEFÍCIO - As catástrofes que assolam o Brasil e se relacionam diretamente com a ocupação irregular de terras têm cobrado alto de nossa população. É insuportável o preço das mortes, dos danos físicos e psicológicos irreversíveis e da dor de muitas pessoas que vão sofrer pelo resto de suas vidas. O pior é que analisando a questão das catástrofes sob o aspecto meramente econômico, contabilizando as perdas em construções e equipamentos habitacionais, bens imóveis do patrimônio histórico, equipamento público urbano e infraestrutura em geral, fazendo as contas com cuidado, veremos que a política de prevenção seria muito eficaz, pois seu custo é baixo quando comparado aos benefícios (a eliminação das pesadas perdas citadas). A Justiça precisa identificar e julgar os responsáveis pelas ocupações irregulares, onde ocorreram os recentes desastres, pois é único jeito de acabar para sempre com sua atitude irresponsável e criminosa.
3. PROGNÓSTICO PARA 2010 – O engenheiro Harald Hellmuth fez algumas previsões para certos aspectos da nossa vida em 2010 e me enviou. Eis seu texto: “No ano eleitoral o governo desejará muito dinheiro na economia, que já se desenvolvia positivamente sem este "estímulo", somente porque o país tem uma numerosa população contendo grandes contingentes carentes de melhora no padrão de vida. Ainda há muito a investir em infraestrutura física e no sistema educacional. A indústria voltará a investir também. Haverá mais trabalho, mais renda e mais consumo. As cotações do açúcar e do álcool estão se recuperando; haverá efeitos positivos na balança comercial. Além disso, o salário mínimo foi reajustado generosamente. As pessoas, no geral, estarão satisfeitas com a situação - que muitos atribuirão ao Lula. A agitação em torno do petróleo do pré-sal é mesmo supérflua, caso não seja prejudicial e insustentável no longo prazo. Os eventos desportivos programados, sem nenhuma margem de dúvida, beneficiarão a economia, principalmente do Rio de Janeiro. A grande incógnita é a saúde efetiva da democracia. Como a sociedade se livrará da ameaça de uma subversão - com democracia aparente do tipo Chavista - pretendida por alguns "chefões" petistas, o MST, sindicalistas e demais "companheiros"? Estes elementos compõem o verdadeiro governo e se valem do Lula, que não lê nem o que assina, para desviar a atenção de sua trama. Falta uma revolução da percepção de valores. A conscientização de valores produziria a procura por soluções efetivas e o abandono das aparências e da corrupção. Valorizaria o trabalho, a educação e a capacitação, mas sobretudo a percepção de responsabilidades. Então, a sociedade, por via democrática, exigiria a terminação da pobreza, seguindo o modelo de urbanização e industrialização praticado na China autoritária: Passariam a ser construídas, na costa atlântica da região Norte e do Nordeste, concentrações urbanas em torno de indústrias verdes apoiadas por extensos projetos de reflorestamento. Salvar-se-iam os biomas da Amazônia, do Cerrado e da Caatinga. Num prazo de dez a quinze anos o Brasil poderia se tornar um sumidouro de gases causadores do efeito estufa. Não é por falta de recursos econômicos, tecnológicos e humanos que tais possibilidades não são abraçadas.” HARALD HELLMUTH
4. TRABALHADOR PERDE DINHEIRO - O Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) teve receitas de R$ 35 bilhões mas gastou quase R$ 37 bilhões em 2009. O rombo de R$ 2 bilhões, ocorreu pela primeira vez e causa preocupação pelo prejuízo aos trabalhadores brasileiros. Pior é que muitas dessas despesas do FAT são dirigidas para programas e projetos muito discutíveis como a qualificação profissional, ministrada em cursos curtos, de péssima qualidade, assim como as pesquisas de desemprego realizadas pelo DIEESE (em algumas Capitais) que contêm erros conceituais graves e já deveriam ter sido descontinuadas há muitos anos.
5. HONDURAS – A propósito, os políticos brasileiros estão viciados em fornecer a seus potenciais eleitores “sem-teto” o chamado “kit favela”, para sua periclitante instalação em áreas de risco. Geralmente, angariam entre 4 e 6 votos por cada (o cacófato é proposital) transação desse tipo. Claro que quando ”a casa cai” a culpa é das intempéries, o político não é responsabilizado como deveria ser praxe da Justiça brasileira e tem ficado tudo por isso mesmo. Internacionalizando esse tipo de ação, o Governo Lula forneceu “convite” velado, tão ou mais perigoso, ao “sem-faixa” Zelaya, para que se aboletasse em nossa embaixada em Tegucigalpa. A pequena mas aguerrida Nação (a maiúscula é proposital) resistiu à pressão do imperialismo-nanico bolivariano, realizou eleições livres dentro dos princípios constitucionais lá vigentes e escolheu seu legítimo Presidente. Agora, resta-nos esperar a remoção, de nossa embaixada, daquele tremendo “barraco” ambulante e sua espalhafatosa “laje” (aquele discreto chapelão...) E que sejam apontados os responsáveis por essa gafe diplomática gigantesca a que submeteram nosso País... Em tempo, creio que Chávez deveria contratar o “competentíssimo” Zelaya como seu consultor para resolver as tremendas crises que se avizinham da Venezuela desgovernada...

3 de jan. de 2010

RITUAL MACABRO DE VERÃO

1. BALANÇO MINIMALISTA DE 2009 – Inflação Anual = 4,31% (IPCA) Exportações = US$ 153 bilhões; Importações = US$ 128 bilhões; Saldo Comercial = US$ 25 bilhões Variação anual do PIB = menos 0,2% (estimativa) Empregos Formais Criados no ano = 995 mil; População Total do Brasil em 31/12/2009 = 192.277.000
2. OS DOIS RITUAIS DE SEMPRE – Na meninice, em meados da década dos 40, eu brincava muito no primeiro quarteirão da Rua Barão da Torre, entre Jangadeiros e Teixeira de Melo, porque lá morava meu primo José Paes. Naquela época ainda não existia a Rua Antonio Parreiras, aberta muitos anos mais tarde para a construção do Hospital de Ipanema. A ampla casa da Rua Barão da Torre esquina com Teixeira de Melo era motivo de curiosidade permanente. Bonita, misteriosa, guardada por um lindo e bravio cão pastor alemão, seu dono era um estrangeiro (diziam) que nunca viamos. Certa manhã chuvosa de verão, a surpresa: a casa fora soterrada por toneladas de barro, lixo, árvores e arbustos que deslizaram do Morro do Cantagalo, já ocupado por uma favela incipiente. Morreram o morador misterioso e seu cão. Tempos depois acabaram de demolir a casa, retiraram o entulho e aquele espaço foi destinado às manobras de retorno do Bonde 14 (General Osório) que vinha de Copacabana, pela Rua Visconde de Pirajá e entrava na Rua Teixeira de Melo para retornar em direção a Copacabana e Botafogo. Passaram-se muitas décadas e os desastres se repetiram a cada verão, sistematicamente. Há dias, 65 anos depois do episódio de minha infância, a favela da Pavão-Pavãozinho despejou toneladas de seus detritos sobre os prédios da Rua Djalma Ulrich. O relevo do Estado do Rio de Janeiro é repleto de morros, geralmente de gnaisse e granito, recobertos de terrenos argilosos, instáveis e que não resistem ao encharcamento. Por outro lado a pluviosidade é intensa. Chegada a época das chuvas, das enchentes, das quedas de barrancos e das muitas mortes consequentes fazemos resignadamente a contabilidade do desastre e mesmo sabendo que no próximo ano tudo se repetirá, nada será providenciado... Que tal se as autoridades - pelo menos - removessem (e definitivamente não deixassem mais construir) imóveis que estão na parte superior ou no sopé de taludes íngremes, assim como os que estão na beira de rios, córregos e canais ? Isso, para começar uma política – séria, sem demagogia - de combate à favelização, à metástase urbana que acomete a maioria de nossas cidades e infelicita as pobres famílias que pagam com a vida o preço de nossa irresponsabilidade e de sua falta de informação. O fim de ano, com as lindas festas que o acompanham, poderia ser um período de esperança, de planos para o futuro, de alegria. Mas não no Rio...Porque é também a época de um ritual macabro, em que cinicamente culpamos os elementos naturais pelos crimes cometidos por todos aqueles que usam sua influência para permitir (a seus futuros eleitores) que construam no lugar proibido, sob as vistas grossas, complacentes e criminosas das chamadas “autoridades responsáveis” (sic).
3. VOLEIBOL VITORIOSO - Mais um ano de ouro para o voleibol brasileiro que "ganhou tudo" no plano internacional, no masculino e no feminino, na quadra e nas praias. Atletas, técnicos e auxiliares, a CBV, seu Presidente Ary Graça e equipe, estão todos de parabéns por manter o Brasil como grande potência nesse esporte fortemente competitivo.

28 de dez. de 2009

RÉVEILLON DO MEIO AMBIENTE EM 2010

FELIZ 2010 ! – 31 de dezembro, final dos anos 40, praia de Ipanema. No início eram poucos e chegavam de longe – dos subúrbios e da Baixada Fluminense, de onde houvesse um terreiro de Candomblé ou um Centro de Umbanda. Vinham de branco, em grupos, contritos e tímidos, um pouco temerosos, talvez. Afinal, a maioria esmagadora das famílias cariocas professava o Catolicismo e o temor de alguma incompreensão justificava-se. Mas eram acolhidos em paz por Ipanema, um espaço da Cidade caracterizado pela tolerância. Eram pobres, mas vinham para uma grande noite e traziam muitos brilhos,enfeites, oferendas, flores, imagens, miniaturas de barcos. À tarde já os víamos por lá, em grande faina, montando os ambientes para o culto, de formas e disposições diversas, mas sempre de frente para os domínios de Iemanjá e a África ancestral. Quanto a nós... Bem, parecia combinado, mas não era... Por volta das 10 ou 11 horas da noite os garotos da Montenegro, da Visconde de Pirajá e das outras ruas, já liberados pelos pais da ceia familiar de praxe, corriam em bandos para aquelas areias muito brancas, das quais conhecíam todos os mistérios. E percorriam a orla para lá e para cá, à busca de novidades. Ouvíamos as rezas, as evoluções, os cânticos, víamos os “passes” das Mães de Santo e até nos surpreendíamos com alguns “transes” mais fortes. Com o passar dos anos, curiosos, os adultos saíram de suas poltronas e sofás, começaram a seguir-nos e gostaram ! O pretexto era “tomar a fresca”, aproveitar a brisa generosa no auge do verão carioca e ver aquela manifestação religiosa cercada de mistério. Alguns de nossos pais, mais entusiasmados, soltavam fogos na chegada da meia-noite e já brindavam o Ano Novo com algum espumante levado de casa. A ida à praia no “réveillon” incorporou-se gradualmente aos hábitos das famílias de Ipanema. Provavelmente tudo ocorreu da mesma forma em Copacabana e no Leblon. Nascia e se desenvolvia, assim, um ritual bem carioca de ir “passar o ano” na praia. Atualmente um evento internacional gigantesco, concentrado em Copacabana para um público cosmopolita de milhões de pessoas, mas que tem ramificações similares expressivas em todas as praias da Cidade do Rio de Janeiro. Mas não nos esqueçamos: começou modestamente e fica na história carioca como herança eterna dos cultos de origens africanas que a garotada bronzeada dos anos dourados acolheu e ajudou a consagrar como manifestação cultural brasileira de importância global.
2.COP 15 – No Brasil e em muitos outros países a impressão já consolidada é de que a COP 15 foi um fracasso. Tive algumas experiências em grandes conferências internacionais e nelas pude sentir as dificuldades em chegar ao consenso sobre qualquer questão. Na verdade, pensando bem, o mundo é ainda a velha Torre de Babel, cada qual falando uma língua diferente. E continua sendo também uma grande Arca de Noé, tripulada por bichos e interesses de todas as espécies. Por azar – sejamos realistas - a COP 15 aconteceu quando o Presidente Obama tinha só uns poucos meses de Governo, o que inibiu seus possíveis voos mais ambiciosos. E seu papel, claro, era fundamental...
3. AFINAL VALEU A PENA - Harald Hellmuth, meu colega da Escola Nacional de Engenharia que entende do assunto, fez seu balanço da COP 15: “A conferência de Copenhague terminou sem alcançar nenhum dos resultados mais esperados: metas compromissadas de redução de emissões de gases causadores do efeito estufa (GEE), pelo menos dos países desenvolvidos, e uma garantia de ajuda financeira aos países mais pobres. Nem os alertas de cientistas, nem a pressão da opinião pública ajudaram os Chefes de Estado presentes a encontrarem um consenso que fosse aceitável por todos os 193 países participantes. Foi tudo em vão ? Além dos condicionamentos resultantes das percepções terceiro-mundistas e dos procedimentos equivocados do encaminhamento das conversações, a consideração dos reais potenciais de contribuição de cada participante e das condicionantes a que estão submetidos precisavam ser considerados, tanto na formação de expectativas realistas como no encaminhamento de negociações. Quanto aos EUA, existe o potencial de transformar sua matriz energética, hoje fundamentada em carvão e petróleo, numa matriz com predominância das energias eólicas e solares, inclusive nos transportes, com a adoção dos acionamentos híbridos, num prazo de 15 a 20 anos (vide Plan B3.0 de Lester Brown). Mas atualmente a legislação e a estrutura fiscal ainda não estão adequadas e os empreendimentos resistem; num regime democrático o governo não pode adiantar compromissos não apoiados pelo Congresso. A China está empenhada em resgatar da pobreza centenas de milhões de cidadãos, através de um inédito esforço de industrialização e de urbanização, que a projetou para a posição de maior poluidor – não só – atmosférico. Todavia, a China desenvolve enormes esforços para aumentar a eficiência energética da economia, executa um ambicioso programa de usinas eólicas, é o maior fabricante global de painéis fotovoltaicos e de captação de energia solar para aquecimento, além de estar realizando um programa de reflorestamento em extensas áreas. A condição de regime autoritário favorece esta espantosa mobilização, mas também explica a aversão a inspeções em seu território. Atualmente, pode ser ainda impossível prever o momento em que os esforços de mitigação resultarão numa redução das emissões. A Índia apresenta condições semelhantes às da China. Com os países maiores poluidores incapacitados de se comprometer com metas, as expectativas e as programações para a COP 15 foram ilusórias. Todavia, o impasse induziu uma evolução das percepções que se materializa no texto final, que estabelece que os países deverão providenciar “informações nacionais” sobre de que forma estão combatendo o aquecimento global, por meio de “consultas internacionais e análises feitas sob padrões claramente definidos”. Esta formulação encerra o potencial de modificar de forma radical a continuação das tratativas, pois focaliza as ações devidas por cada parte e a prestação de contas diante da comunidade internacional. Caso esta reorientação se confirme, a COP 15 não foi em vão. Reconhecer-se-á então, que a conferência produziu um passo imprescindível na direção da mobilização das sociedades pelo Desenvolvimento Sustentável, ou seja, pela solução simultânea dos problemas ambientais, sociais e econômicos.” HARALD HELLMUTH

23 de dez. de 2009

A CARTA QUE MUDOU A MINHA VIDA

1. LINCOLN GORDON – Morreu Lincoln Gordon, um “scholar” renomado da Universidade de Harvard que foi Embaixador dos Estados Unidos no Brasil nos anos 60. Conheci-o. Era um gentleman, inteligente e culto, que amava o Brasil. Eu trabalhava na CONSULTEC quando Lincoln Gordon indicou nossa empresa ao Harvard Center for International Studies para que coordenássemos a elaboração de 14 monografias sobre a economia brasileira. Fui indicado para escrever sobre “EDUCAÇÃO E DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO NO BRASIL” (1963). Assim que acabei meu trabalho, Mário da Silva Pinto, Sócio-Gerente da CONSULTEC, enviou os originais a Lincoln Gordon que escreveu uma carta elogiosa e a partir daí minha vida profissional deu uma guinada e dediquei-me durante muitos anos à educação.
2.GLOSSÁRIO DA SUSTENTABILIDADE - Na COP 15 distinguia-se sempre os dois tipos de ação passíveis de desenvolver em favor da sustentabilidade como sendo ou a mitigação ou a adaptação. Fazendo uma analogia, eu diria que a mitigação seria a Medicina Preventiva enquanto a adaptação seria a Medicina Curativa. Harald Hellmuth esclareceu-me que:
a) Mitigação: são ações que objetivam a redução da concentração de gases causadores do efeito estufa - GEE - na atmosfera. Compreendem:
- A redução do consumo de energia, por exemplo através da utilzação de lâmpadas econômicas ou LEDs na iluminação e aparelhos elétricos com maior eficiência.
- A redução de emissões por exemplo na geração de energia, por exemplo substituindo a geração por usinas termelétricas a carvão por geração eólica e solar e os acionamentos feitos a motor a gasolina por acionamentos híbridos, de preferência com etanol e elétrico com alimentação por tomada. No caso do Brasil, principalmente pela terminação dos desflorestamentos.
- O aumento da capacidade de sequestro de CO2 através do florestamento e do reflorestamento.
b) Adaptação: são ações que objetivam a acomodação a efeitos causados por mudanças climáticas inevitáveis. Exemplo:
- Aumento dos diques na Holanda.
- Desenvolvimento de espécies vegetais reistentes a temperaturas mais altas e a menor índice de pluviosidade.”
3.CHILE NA OECD – O Chile vai ingressar no grupo seleto de países-membros da OECD. Na mesma notícia, ouvi perplexo que o Brasil também foi sondado mas não aceitou, pelo fato de que o ingresso no órgão pressupõe a obediência a certas normas e que o Brasil não iria se submeter etc etc. A OECD é a organização internacional de maior competência que conheci ao longo de minha carreira profissional, com muitas passagens pelo exterior e contacto com Agências da ONU, OEA etc. A OECD é um dos bastiões da luta contra a lavagem de dinheiro e a corrupção. Será que a recusa de transparência por parte de nosso Governo tem alguma relação com esse campo de atuação da OECD ?
4.PROMESSA NÃO CUMPRIDA - Lula disse na mensagem natalina que em seus 7 anos de Governo foram gerados 12 milhões de empregos. Não é verdade ! E o pior: ninguém desmente ! Incompetência ou cumplicidade ?

21 de dez. de 2009

Mídia Amestrada, Avaliações Imobiliárias e Pensões Miseráveis

1. GANHANDO NA MANCHETE – Quantas e quão ricas lições podemos extrair da observação de nossa mídia ! Durante 5 anos mantive uma coluna sobre voleibol, aos domingos, no “CORREIO DA MANHÔ. Não ganhava nada, era jogador do Fluminense e escrevia por amor ao voleibol e à verdade, produto que era muito escasso no setor. Mas aprendi muita coisa interessante, nas entranhas da redação e das rotativas. Semana passada deparei com a estrondosa manchete de primeira página, na edição dominical de um típico jornal do Brasil atual: “BANDA LARGA CRESCE 75%”. Logo abaixo fica-se sabendo que isso ocorreu no breve intervalo de três anos, entre 2005 e 2008. Fenomenal, vitória nacional, ponto para o Governo Lula ! – pensei de imediato. Vai–se ler a matéria e a constatação é de que, em verdade, houve uma melhoria pífia nos nossos ridículos índices digitais. A percentagem de computadores do País com esse acesso mais civilizado era de 20% do total e passou a 35%. Saímos do quarto mundo e adentramos vitoriosos o terceiro mundo. Só isso. Mas quais os significados dessa singela manchete ? - “Tá tudo dominado !”
2. O PODER DAS MASMORRAS - Qualquer ofício tem seus truques - é claro – e a maioria pode servir tanto a Deus quanto ao Diabo. O artifício jornalístico descrito acima chamava-se outrora “ganhar na manchete”. Frutificou na ditadura de Vargas e era muito praticado pelos militantes comunistas nos momentos de maior repressão. O Partidão, na ilegalidade, tinha muitos adeptos nas máquinas e naquela época, para acertar a paginação, otimizar os espaços disponíveis, muitas manchetes eram colocadas nas oficinas, já no momento de rodar o jornal. Caso o articulista ou repórter escrevesse matéria de interesse da “célula vermelha” local, lançava-se mão do “mancheteiro” providencial que lá nas oficinas usava sua criatividade à larga e podia até distorcer totalmente e contradizer a notícia. Partia-se do pressuposto – correto até hoje – que a maioria dos leitores só olha as manchetes. Mais recentemente, os computadores acabaram com a festa e aquela manchete cabulosa só pode ser obra da redação ou da própria direção. Esse mesmo jornal manifestara, há alguns meses, a disposição de vender seus ativos. A partir daí suas edições foram ficando “magrinhas”, anêmicas mesmo e seus conteúdos cada vez “circulares”, aquele tipo de matéria sem rumo definido, que não diz nada, o que antecipa mudança de orientação política. A seguir, a publicidade voltou a “pintar” e as verbas vão chover grosso na horta do plutocrata jornalístico ! Ponto para os Goebbels de plantão... Mais um que está “dominado” ! Daqui a pouco só restará a Internet aos homens livres para que manifestem suas ideias...
3. SÓ PARA ENGENHEIROS – Leitores perguntam sobre a avaliação de imóveis. Os três métodos mais comuns são: A) Método da Reposição ou Reprodução, no qual se calcula quanto seria necessário gastar para construir um imóvel igual ao avaliado, efetuando-se a seguir a diminuição de uma depreciação que é função da idade do imóvel e de outros fatores construtivos como o estado de conservação. O problema é que com a metástase urbana sobreveio um tipo adicional de depreciação, com grande volatilidade e de difícil mensuração, envolvendo fatores psico-sociais – sensação de insegurança, temor da violência, deterioração das posturas urbanas (camelôs, população de rua, vias usadas como dormitórios e banheiros etc). B) outro é o Método da Renda, que avalia o imóvel conforme a receita que é capaz de gerar, a partir do retorno dado pelo seu aluguel. Esse método também não se aplica mais universalmente, pois o valor potencial do aluguel não é um dado suficiente para definir a renda obtida no médio e longo prazo. Em áreas conflagradas, a rotatividade e inadimplência dos inquilinos são elevadíssimas (os imóveis ficam vagos por longos períodos, obrigando proprietários ao pagamento dos tributos e encargos condominiais). O rendimento é incerto. C) O terceiro é o Método Comparativo, em que o valor do imóvel é obtido cotejando-se suas características com as de outros similares que estão sendo negociados no mercado. Os dados daí derivados não permitem uma avaliação perfeita do imóvel que esteja imerso em um ambiente de violência urbana. É preciso acompanhar as oscilações dos valores de mercado ao longo dos últimos anos e, o que é mais difícil, conhecer sua sensibilidade (em outras palavras: sua desvalorização) a eventos de violência ocorridos na sua área de influência. Aferida essa sensibilidade (à bala perdida que mata/fere o transeunte ou o morador; ao assalto ao idoso; ao latrocínio; aos enfrentamentos entre traficantes e policiais etc) é indispensável usar o cálculo de probabilidades para saber com que freqüência se deve esperar que esses eventos venham a repetir-se no futuro, desvalorizando progressivamente o imóvel. Nada simples... 4. APOSENTADOS AO MAR – Aposentado do INSS em janeiro de 2000, minha pensão subiu apenas 99,66% desde então, enquanto o salário mínimo subiu 241,91% no mesmo período. Em outras palavras, ganho hoje 58% do que seria justo – pouco mais que a metade. Mas agora vem a eleição e Lula vai enganar os velhinhos, dizendo que nos dará 6% de aumento, uma porcentagem maravilhosa, maior que a inflação ! Acontece que o salário mínimo vai subir 9% ou 10%, aumentando a defasagem. Nessa hora os sindicalistas - defensores dos trabalhadores, lembram ? - se calam, porque o deles está garantido... Nivelar por baixo é o lema do Governo Lula... Menos para a turma do PT, todos ganhando 10, 12 ou 14 mil reais por mês com os impostos suados que nós pagamos.

18 de dez. de 2009

EMPREGO, EOLO, DOPING, UPP, VARGENS

1. CAGED - Em novembro de 2009 foram gerados 246.695 empregos formais no Brasil e o acumulado do ano chegou a 1.410.000. Esse resultado fica 30% abaixo dos 2.107.000 postos de trabalho conseguidos em 2008 para igual período. Como dezembro é um mês em que o setor produtivo perde empregos, o ano de 2009 fechará com saldo de 1,1 a 1,2 milhão, resultado pior que em 2008. Deve-se lembrar que o Brasil deveria criar anualmente 1,8 milhão de empregos para os jovens que chegam ao mercado de trabalho. Notícia ruim, também, é que a Indústria de Transformação não manteve a reação esperada e de janeiro a novembro de 2009 criou apenas 177 mil postos de trabalho contra 452 mil em igual período em 2008. Tal fato indica que o PIB de 2009 deve diminuir quase 0,5% e nossa renda per capita cairá 2%, o que não é nada desprezível. Ficamos mais pobres mesmo pegando só a “marolinha” da crise mundial.
2. VAMOS CHAMAR O VENTO... – Harald Hellmuth escreveu-me festejando o sucesso do leilão da energia eólica brasileira e lembrando “que as usinas hidrelétricas não conseguem aproveitar integralmente a capacidade instalada durante o ano todo, devido à variação da vazão dos cursos d'água. Assim, geração eólica e hidrelétrica são complementares. E há mais vento quando as vazões hídricas são menores ! Portanto, além de somar-se à oferta de energia, as turbinas eólicas contribuirão para reduzir as variações de oferta. O impacto ambiental deve ser o mais baixo de todas as fontes, ao lado da co-geração com biomassa, como se pratica nas usinas de açúcar e álcool e nas indústrias de papel e celulose. Nos Estados Unidos, como na China e na Alemanha já existem capacidades instaladas de energia eólica de 30.000 MW, que estão substituindo usinas a carvão. Diante do potencial eólico brasileiro de 140.000 MW, seu status atual como energia apenas de reserva deverá ser superado. Além disso, como não haverá disponibilidade fabril no exterior para suprir toda a demanda global por turbinas eólicas, a fabricação no Brasil é necessária, existindo mesmo certa margem para exportação. Com a acumulação de experiência e maior escala, os custos tenderão a baixar. As instalações de pás nas regiões marítimas têm custo mais alto, mas também maior produção. Incentivos à geração eólica poderiam amenizar as desigualdades regionais, favorecendo áreas deprimidas do Nordeste.” HARALD HELLMUTH
3. DOPING - Os dopantes mais potentes usados no desporto têm margens de detecção muito curtas. Estão nesse caso a eritropoietina (EPO), a testosterona e o hormônio de crescimento (hGH). Por esse motivo, quanto mais testes anti-doping forem realizados fora das competições, mais eficaz será a detecção do doping. A aleatoriedade dos testes tira a margem de manobra dos atletas que usam o doping e de seu pessoal de apoio. As estatísticas comprovam essa realidade. Doping é crime e pode matar o atleta e o esporte !
4. O CUSTO DAS FAVELAS – Notícias sobre o mercado imobiliário dão conta de uma grande valorização recente dos imóveis nas Capitais do Rio de Janeiro e São Paulo. Creio que esses dados estão muito influenciados pelos avanços feitos no campo da segurança. Em São Paulo, ultimamente, os índices gerais de criminalidade caíram muito. No Rio, depois da implementação do projeto das Unidades de Polícia Pacificadora (UPP), áreas que haviam se desvalorizado pela proximidade com favelas estão se revalorizando. Embora não se saiba ainda em que medida serão recuperados os antigos valores dos imóveis no entorno das favelas em que o tráfico está sendo expulso, a revalorização começa de imediato. Meus colegas engenheiros que fazem avaliações estão tendo mais trabalho, porque os paradigmas do mercado imobiliário foram quebrados no Rio de Janeiro. Os agentes econômicos tomam suas decisões com base em três atributos inerentes aos diferentes investimentos: segurança, liquidez e rentabilidade. O imóvel é tradicionalmente uma opção de baixa rentabilidade, liquidez média e segurança elevada. No Rio de Janeiro a metástase urbana, causada pela expansão das favelas, seu surgimento repentino em pontos inesperados e até recentemente sem repressão, retirou do investimento imobiliário essa sua característica mais apreciada: a segurança.
5. VENEZA CARIOCA - O Prefeito Eduardo Paes tem, neste momento, uma grande oportunidade de evitar que uma linda área do Rio de Janeiro sofra um colapso semelhante ao que está ocorrendo no Jardim Pantanal da Capital paulista. A enorme população daquela região paulistana, ao lado do Rio Tietê, está literalmente submersa há vários dias e o problema parece irreversível. O Prefeito do Rio tem em suas mãos o PEU aprovado na Câmara dos Vereadores para Recreio dos Bandeirantes, Vargem Grande e Vargem Pequena, permitindo que os bairros sejam efetivamente urbanizados, de acordo com conceitos modernos e que evitarão as enchentes que a favelização da região determinará forçosamente se não for detida a tempo. As Vargens podem ser o Pantanal Carioca ou a Veneza Carioca - o Prefeito vai escolher !

14 de dez. de 2009

BRASIL MAIS POBRE, FAVELAS MAIS CARAS

1. DECEPÇÃO - O PIB brasileiro do 3º. trimestre de 2009 foi decepcionante, muito abaixo do que apregoavam as autoridades do Governo. Teria sido melhor se, em vez de usar a retórica do palavrão, Lula tivesse investido em Saneamento Básico, para tirar o povão da vala negra e ainda aumentar o nosso magro PIB. Mas não ! O dinheiro vai todo para despesas correntes, para pagar milhares de petistas e sindicalistas, parasitas que sobrevivem nas tetas do Governo, além de servir para subsidiar o MST. Este sim... teve sucesso e prejudicou bastante o agronegócio: o PIB de nossa Agricultura caiu 2,9% no trimestre. Com esse resultado, o Brasil ficará mais pobre em 2009, pois o PIB pode cair cerca de 0,4%. E o povo brasileiro terá sua renda per capita reduzida em mais de 1,5%. Êta “marolinha” cara ! E o Governo...Bem, vai dizer que 2010 será um ano maravilhoso!
2. LIXÔMETRO E LUXÔMETRO – Criativa e elogiável a ideia do Prefeito Eduardo Paes, encarregando a COMLURB de medir, comparativamente, a sujeira que os cariocas depositam em seus bairros, para depois premiar, com obras, os locais que mais economizarem com a diminuição de seu lixo. Péssima, porém, a poda de árvores que a mesma COMLURB está fazendo no Jardim Oceânico nos últimos dias, exatamente quando há muitos ninhos com filhotes, sacrificados pela incompetência da Prefeitura. Isso, quando o mundo está discutindo a sobrevivência no planeta. Afinal, se legislação brasileira protege a fauna silvestre, pode um órgão público matar impunemente toda uma geração de pássaros ? Pior que isso só essa ameaça de cobrar mais pela nossa pobre iluminação, usando argumentos que aprendeu com seu sucessor, mestre da meia-verdade, já agora ambos exploradores do desconhecimento do povo acerca dos meandros da legislação financeira em vigor. Responsabilidade fiscal ? Apague os lampiões acesos durante o dia, Prefeito, ou vamos instalar o seu LUXÔMETRO e cobrar-lhe o desperdício!
3. LAMARTINE - A Universidade Gama Filho, juntamente com a Universidade do Esporte de Beijing e com o apoio do Comitê Olímpico Internacional, está lançando (em 17/12) o livro “Olympic Studies Reader”, coordenado pelos professores Lamartine Pereira da Costa e Ren Hai, contendo uma valiosa contribuição de 86 especialistas de cinco continentes ao campo dos Estudos Olímpicos. Lamartine trabalhou comigo no IPEA, onde elaborou o Primeiro Diagnóstico de Educação Física e Desportos no Brasil e depois no MOBRAL, sendo o responsável pela estruturação administrativa da instituição e sua capilaridade nacional. O MOBRAL, é bom lembrar, foi a primeira organização brasileira a ter presença em todos os Municípios brasileiros.
4. PAUL SAMUELSON – Aprendi desde cedo que quem domina um assunto é capaz de escrever sobre ele com clareza, mas quem apenas finge saber...bem...escreve difícil, incompreensível. Samuelson escreveu um livro cristalino sobre “Economia: Uma Análise Introdutória” que toda minha geração que queria aprender a matéria leu com prazer. Seu Prêmio NOBEL de Economia foi merecidíssimo.
5. O CUSTO DAS FAVELAS – Rua Djalma Ulrich. Bem em frente, na praia, ficava o campo do Huracan, o segundo time pelo qual joguei futebol em Copacabana. Formado principalmente pela garotada que morava no Edifício Andraus (na Avenida Nossa Senhora de Copacabana) e na própria Djalma Ulrich, rua chique, que tinha um edifício outrora muito bonito e valorizado, que encantava pelo aspecto austero e pela área externa ampla. A última chuva atolou-o com uma incrível montanha de lixo que caiu da Favela Pavão-Pavãozinho e alcançou o leito da rua e suas calçadas. Desvalorizou ainda mais os imóveis da área. O evento caracteriza bem a metástase urbana causada pelas favelas cariocas. As autoridades fluminenses - e especialmente as cariocas - deveriam repensar a realidade da favelização e mirar-se em sua evolução histórica. Poderiam surpreender-se e concluir que a política de remoção de favelas do Governador Carlos Lacerda estava certíssima. Quanto mais o tempo passa, mais fica evidente a justeza do raciocínio que embasava a ação daquele Governador. A favela, mesmo pequena, já é um fator de imediata desvalorização de todas as propriedades das vizinhanças. Em seu território não há arrecadação, as tarifas são sonegadas e vão recair injustamente sobre os demais habitantes da cidade que são bons pagadores. A partir de certo tamanho, a favela vira um território em que o Estado perde toda sua autoridade para meliantes e criminosos de todos os matizes. Claro que lá moram muitas pessoas de bem, mas elas não controlam a situação, exatamente por serem pessoas de bem. Os bandidos imperam, mandam e desmandam, são “senhores de cutelo e baraço”, assediam e transviam jovens, ditam as leis para o comércio legal das redondezas e promovem o comércio mafioso e ilícito. Quem reagir, morre. Tudo isso tem um custo elevadíssimo. Por outro lado, alguém deveria analisar o impacto econômico positivo da remoção, por Lacerda, da Favela da Catacumba, na Lagoa ou da Praia do Pinto, no Leblon, que acarretaram: valorização dos terrenos onde era a favela; valorização dos imóveis nas suas vizinhanças; impacto dos investimentos atraídos para o local em termos de emprego e renda; aumento da arrecadação tributária por força dos fatores citados; redução das taxas de criminalidade, mortalidade, morbidade e consequentemente das despesas com segurança, saúde e saneamento na área de influência da favela. Pode-se até ir mais longe, porque tais remoções recuperaram para a Cidade um trecho belíssimo do Rio de Janeiro, com grande impacto no turismo, pois a circulação em volta da Lagoa Rodrigo de Freitas não seria possível sem a ação mencionada. Assim como as instalações dos esportes olímpicos do Flamengo não estariam lá. Hoje, estão perdidos para as favelas e mais a constelação de problemas que elas acarretam, locais outrora maravilhosos do Rio: o Alto da Boavista e seu parque; Grajau, Tijuca e suas florestas; os rios e lagoas do Recreio dos Bandeirantes, Vargem Grande, Vargem Pequena e o entorno das Lagoas da Barra da Tijuca; partes importantes de Ipanema, Copacabana e Leme, e muitos outros espaços de beleza natural invulgar, inclusive áreas de preservação ambiental. Isso não tem preço !

7 de dez. de 2009

O QUE SERIA DE BOM TOM NA COP 15

1. 15 ANOS FORA DE TOM – No começo, para a garotada da Montenegro, ele era uma “figuraça” que chegava na praia quando já ia anoitecer e nosso “racha” de fim de tarde estava acabando. Depois, disse-nos o Juquinha, baterista talentoso com físico de jóquei, que ele era músico e que tocavam juntos no Beco das Garrafas. A manicure de minha mãe, irmã do Newton Mendonça, confirmou: os dois eram parceiros musicais. Quando Tom Jobim começou a frequentar o nosso Veloso (o nome era Bar Montenegro, mas o dono se chamava Veloso) descobrimos que ele era um tremendo “boa praça”, que conversava muito conosco, uns 10 anos mais novos do que ele. E como não éramos dos meios artísticos, Tom nos dizia coisas que provavelmente não falaria aos do seu “metier”. Sempre coisas positivas: parecia eternamente de bem com a vida e com o resto da Humanidade – essa, a impressão mais forte que tenho do Tom. Um dia ele me perguntou, afirmando ao mesmo tempo: “vocês, jovens, não gostam de música brasileira, não é ? Vocês gostam só de música americana, mas eu vou criar um som que vocês todos vão gostar...” Palavras proféticas. E lá veio a bossa nova, sucesso na minha geração. Sucesso no mundo todo. Depois que casei, só ocasionalmente passava pelo Veloso. Tom começou a viajar mais e nosso contacto acabou. Em 1993 nos reencontramos algumas vezes no Plataforma, juntamente com o Walter Clark. O doce Tom dá saudades aos amigos, mas seu gênio faz falta principalmente à música brasileira, pois o que está por aí é muito pobre e seu talento poderia revigorá-la.
2. MAIS VALE PREVENIR... – Tom Jobim, amante da Natureza, nos diria, em sua sabedoria, que pouco importa se o aquecimento global é obra ou não da ação do homem. Temos que deixar de ser predadores do planeta e esse é um imperativo ético, estético e da razão que está posto agora, na COP 15. O engenheiro Harald Hellmuth, muito a propósito, mandou-me um texto intitulado “Visão e projeto para a Amazônia no contexto da Sustentabilidade”, com oportunas considerações que transcrevo: “A COP 15 tratará das Mudanças Climáticas decorrentes do aquecimento global da atmosfera e dos mares, que está sendo induzido pelo aumento da concentração dos gases causadores do efeito estufa (GEE) na atmosfera, em consequência, principalmente, da liberação do carbono fóssil pela combustão de carvão mineral e petróleo. Não é difícil entender que o aumento da concentração de GEE será anulado quando as emissões forem equivalentes à capacidade da natureza de eliminar os gases produzidos, seja por destruição, seqüestro na fotossíntese ou por outra via. Para tanto, a Humanidade detém uma série de recursos e abordagens, dos quais se destacam: o aumento da eficiência energética na produção de bens e serviços de sua necessidade; a redução de consumo de energia nos prédios e transportes; a utilização de fontes renováveis, que não geram emissões ou que reciclam o carbono pela substituição dos combustíveis fósseis, e o aumento da capacidade de seqüestro de carbono. Simultaneamente às questões da Sustentabilidade Ambiental, na qual se situam os problemas do clima, a Humanidade precisa solucionar - com igual ou até maior urgência - o problema da miséria de numerosos contingentes da população. Caso as emissões causadas pelo aumento do consumo das populações resgatadas da miséria não sejam compensadas por medidas suficientemente enérgicas de redução e seqüestro de emissões no âmbito global, o equilíbrio da concentração de GEE na atmosfera não será atingido. Por outro lado, a Sustentabilidade Social implica na integração dos contingentes pobres no processo produtivo, aspecto que não consta diretamente na pauta da COP 15. Cada sociedade participante da conferência vê as questões em pauta a partir de suas próprias necessidades e de seus potenciais da ação. O foco nos limites de concentração e nas correspondentes metas de reduções globais de emissões em relação ao nível de 1990, formulados pelo IPCC, representa a grande inovação indutora de uma convergência. Apesar das evoluções das percepções provocadas pela iminência da Conferência, ainda persistem receios sobre conseqüências econômicas, resistências de interesses alicerçados nas estruturas existentes, preconceitos ideológicos e mesmo simples incompreensão da natureza das tratativas, diferente de uma negociação comercial. Ainda não é generalizada a percepção que os debates versam sobre a responsabilidade pelas condições de sobrevivência da Humanidade, não existindo condicionamentos reflexivos das ações que cada parte deveria empreender voluntaria e soberanamente. Ocupando o Brasil a quarta ou quinta posição entre os maiores poluidores da atmosfera apenas por conta dos desmatamentos, em particular da Amazônia, mas também do Cerrado, é certo que as florestas estarão no foco das discussões sobre suas metas e compromissos. Diante desta expectativa, a posição oficial evoluiu para uma proposição de metas aparentemente consonantes com valores defendidos pelo IPCC, embora divergentes quanto à base de referência, e prevendo uma redução dos desmatamentos em 80% até 2020 em comparação aos ocorridos em 2005. Por enquanto, passa despercebido que o critério de referência “business as usual” (BAU), empregado na quantificação de medidas de redução de emissões em sociedades industrializadas, não é aplicável às florestas e às metas brasileiras, pois elas se esgotam no desmatamento, extinguindo-se suas contribuições para a estabilidade do clima. Na verdade, o Brasil procura minimizar os compromissos a serem assumidos, praticando táticas de negociação convencional, equivocadas em relação à causa em pauta. Outra aspiração dos negociadores brasileiros é obter subsídios financeiros de sociedades desenvolvidas para prevenir os desmatamentos. Compreende-se que o Governador do Amazonas procure amealhar recursos financeiros. Mas não estaria ele equivocado? As sociedades desenvolvidas precisam investir na redução mais rápida possível de emissões e não em "compensações". Por outro lado, a China demonstra que a redenção social de numerosos contingentes rurais - e florestais - pobres está no oferecimento de ocupação com mais alta produtividade em regiões urbanas. Mas não existe ainda no Brasil sequer a idéia de um projeto para a formação de cidades industriais na costa atlântica da Região Norte. As indústrias verdes lá estabelecidas seriam supridas a partir de grandes áreas reflorestadas, hoje degradadas, que seqüestrariam carbono no seu crescimento. O reflorestamento também ocuparia um número considerável de famílias. As populações da floresta migrariam voluntariamente para sítios que oferecessem melhores condições de conforto. O esforço do Poder Público, de proteger o patrimônio florestal da nação, ficaria em muito facilitado. Não depende de recursos estrangeiros, que não são asseguráveis num prazo dilatado. E convenha-se que argumentações de “desmatamento evitado” em relação a atos de truculência aventureira têm base absolutamente frágil. Da baixa contribuição da indústria, da geração de energia, dos transportes e dos prédios nas emissões de GEE do Brasil – no total cerca de 20% - em contraste com os países desenvolvidos, com grande participação de carvão nas matrizes energéticas e necessitados de aquecimento durante o inverno – onde perfazem o total das emissões - resulta que o Brasil está em condições singulares de rapidamente reduzir as emissões com custos comparativamente baixos. Basta terminar os desmatamentos, responsáveis por cerca de 55% das emissões do Brasil. A percepção de que os desmatamentos são desnecessários para o desenvolvimento econômico e que não contribuem para a mitigação da pobreza apenas começa a aflorar. Mas a sociedade não se indigna com o fato de que os desmatamentos significam apropriação clandestina do patrimônio nacional a cuidado do Estado para conversão em pastagens e lavouras particulares. Constata-se, portanto, que a sociedade brasileira ainda não amadureceu uma percepção das suas potencialidades singulares no contexto do Desenvolvimento Sustentável e da falta de conflito entre interesses por melhor bem-estar geral e as responsabilidades diante da comunidade global. Tal conscientização teria de resultar no abandono de crenças e hábitos tradicionais, principalmente por parte dos formuladores de estratégias e políticas públicas, cujas percepções difusas explicam as atitudes preponderantemente defensivas e oportunistas na preparação para a COP.” HARALD HELLMUTH

4 de dez. de 2009

ENGENHARIA BRASILEIRA, FUTEBOL SEM OXIGÊNIO

1. POLÍTICA E ENGENHARIA - Carlos Henrique Villela, profissional muito atuante, foi meu colega na Escola Nacional de Engenharia e enviou sua opinião sobre problemas atuais da profissão e do nosso País. Especialmente enfatizando a falta de qualificação dos trabalhadores e o despreparo dos políticos que mandam no Brasil. Eis seu texto: “Tanto o artigo do nosso colega Carlos Roberto Santos Moura (vide texto anterior do meu blog intitulado “PLANEJAMENTO SEM IPEA”), quanto a sua complementação, retratam a preocupação de nossa geração, que iniciou a vida profissional com JK. O lapso de investimento em infraestrutura da era pós-JK resultou em prejuízo inominável, com a perda de memória da técnica em Engenharia. Trabalhei 30 anos em Grandes Estruturas, conseguindo a formação de somente três Mestres de Obras competentes que, além de outras virtudes, fossem capazes de evitar colapsos como o ainda recente acidente na Linha Amarela do Metrô de S. Paulo. Considero que essa formação tem um custo bastante razoável, comparado ao sacrifício de muitas vidas perdidas em acidentes do aprendizado. Diria mesmo que um Mestre de Obras competente representa mais que 70% da segurança da obra. Lembro que a importância maior da nossa ação (do Engenheiro) se desenvolve ANTES da obra: em projetos e planejamento. Hoje, dificilmente se encontrará na praça um bom Mestre de Obras ou Encarregado (de forma ou de armação) pois, após longo período de falta de emprego (de obras), viraram agricultores ou pequenos comerciantes. Daí, como consequência, a obra do Metrô que citei ter sido dividida por cinco das maiores empreiteiras do Brasil, capazes, cada uma delas, na era JK, de contratar muito mais que o trecho sinistrado. Mas vejo que entramos na ERA DE CONSAGRAÇÃO DO POPULISMO, que se espalhou por toda a America Latina. Nossa geração presenciou a degradação da Argentina com o Peronismo e o nosso atraso com o Getulismo, como exemplos mais próximos. Hoje, vemos o nosso grande Lula monitorado pelo Hugo Chavez - que está conseguindo destruir a Venezuela, apesar da potência econômica promovida pelo petróleo. Para mim, isso é um ranço do COLONIALISMO. Deixamos de ser colonizados por Portugueses e Espanhóis para o ser pelos Políticos, que a população elege como TUTORES e não LIDERES. A DIFERENÇA está na proposta: o LIDER diz "VAMOS COMIGO" enquanto o TUTOR diz "DEIXA COMIGO". Isso explica a passividade da população latina, permitindo a proliferação dos atuais Títeres, achando que é isso mesmo, que não tem jeito. Assim, concordo: REALMENTE NÃO TEM JEITO. Desculpe o desabafo sobre um assunto que há muitos anos me incomoda.” Carlos Henrique Villela 2. VISÃO DE ENGENHEIRO-ECONOMISTA – Carlos Henrique, que se formou comigo em 1960, tem razão quanto ao marasmo que acometeu o País de 1960 até 1964, período no qual pouco se investiu e no qual predominou a politicagem. Um visível contraste com a realização do dinâmico PLANO DE METAS do Governo JK e a construção de Brasília (1955-1960). Mas após a Revolução de 31 de março de 1964, na minha visão de engenheiro-economista, veio a compensação, com enormes investimentos em infraestrutura, como jamais se fizera antes – em rodovias, hidrelétricas, saneamento, habitação popular e de classe média, instalações portuárias etc. A infraestrutura construída no período militar é praticamente a que temos ainda hoje, porque desde então também pouco se investiu, principalmente nos últimos 15 anos, período em que nossa infraestrutura viveu de remendos ineficazes. Ainda bem que ultimamente a construção civil conta com um novo programa habitacional - uma boa iniciativa do Governo Federal - que tem garantido o renascimento do setor e uma ponderável criação de empregos.
2. INTRUSOS NO CAMPO DE FUTEBOL – a) A FIFA tem que tomar providências urgentes contra dois tipos de intrusos que atualmente assediam os campos de jogo. Primeiro, torcedores que invadem o campo, qualquer que seja seu intuito, têm que ser severamente punidos nos foros criminais e o clube mandante do respectivo jogo duramente condenado nos tribunais desportivos. Caso isso não seja feito, em breve chegará o dia em que lamentaremos a agressão violenta de um protagonista, jogador ou árbitro, talvez com consequências fatais. O outro invasor a coibir no futebol é o “novo gandula” – agora, depois do exemplo da LDU contra o Fluminense, em Quito, a “equipe de novos gandulas”. Essa figura passou a influir no resultado e em breve estará até entrando em campo e chutando a bola de jogo. A omissão da FIFA em ambos os casos é imperdoável... b) Também acho (como a FIFA) que o uso dos meios eletrônicos afetará a dinâmica do futebol, mas como o jogo se tornou muito mais rápido, os árbitros têm que apresentar um condicionamento físico muito superior ao de hoje e devem ser testados e observados periodicamente. c) Finalmente, uma observação: recentemente tenho visto jogos em que árbitros permitem um intervalo, em cada tempo de jogo, para os atletas se refrescarem nos dias de grande calor. Mas ultimamente não vi qualquer árbitro dando um descanso para atletas (com falta de ar) para aspirarem oxigênio em jogos disputados em altitudes elevadas. Acorda FIFA !

30 de nov. de 2009

PESQUISA, DIFUSÃO, VELUDO CHECO, OLIVEIRA DE BARREIROS

1. Evolução em Pesquisa & Desenvolvimento – sob esse título recebi mais uma valiosa contribuição do meu colega Carlos Roberto dos Santos Moura, engenheiro civil, Presidente da FEBRAE – Federação Brasileira de Associações de Engenheiros. Aborda tema da maior importância para o futuro do Brasil, que tem sido relegado ao esquecimento. Eis o texto: “O investimento em pesquisa e desenvolvimento (P&D) é fundamental para a evolução tecnológica de um país. De acordo com o Manual Frascati, da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), são definidas como atividades de P&D: “todo o trabalho criativo efetuado sistematicamente para ampliar a base de conhecimentos científicos e tecnológicos e o uso desses conhecimentos para criar novas aplicações”. São três as atividades consideradas pelo referido manual: “a investigação básica, trabalhos experimentais e teóricos para obtenção do fundamento de fenômenos e fatos observados, sem pensar em aplicações; a investigação aplicada, trabalhos para adquirir novos conhecimentos com um objetivo específico; e desenvolvimento experimental, trabalhos sistemáticos de aproveitamento dos conhecimentos existentes, dirigidos para a produção de novos produtos, processos e serviços ou melhoria dos já existentes”. Os dados disponíveis no Ministério de Ciência e Tecnologia, referentes ao investimento brasileiro em P&D em relação ao PIB (Produto Interno Bruto), são insatisfatórios, quando comparados aos de outros países, embora tenha havido uma ligeira ascensão, entre 2005 (0,97% do PIB) e 2008 (1,13%), após uma queda no período 2001 (1,04%) a 2004 (0,90%). Para efeito comparativo, mencionamos os percentuais referentes a alguns países desenvolvidos ou em desenvolvimento (valores conhecidos mais recentes): Alemanha 2,54% (2007); Austrália 2,01% (2006); Canadá 1,82% (2008); China 1,49% (2007); Cingapura 2,61% (2007); Coréia do Sul 3,47% (2007); Estados Unidos 2,68% (2007); França 2,08 (2007); Japão 3,44% (2007); Reino Unido 1,79% (2007). A comparação, entre diferentes países, dos percentuais aplicados em P&D é bastante confiável, tendo em vista que se baseia em metodologia consolidada e aceita internacionalmente. Assim, verifica-se ser imperiosa a necessidade de serem aumentados os investimentos do Brasil em P&D, para que possamos almejar, efetivamente, o status de nação desenvolvida. As aplicações em pesquisa e desenvolvimento são compostas por investimentos públicos (federais e estaduais) e empresariais (empresas privadas e estatais). Além do aumento do dispêndio na área federal, especialmente por meio dos programas de pós-graduação e pelas estatais federais, o Governo deve avaliar a conveniência de incentivos fiscais para a iniciativa privada investir em pesquisa e desenvolvimento. Hoje, em nossa economia globalizada, é indiferente para as empresas instalarem centros de pesquisas na Índia ou no Brasil. A escolha é função das vantagens oferecidas.” Carlos Roberto dos Santos Moura
2. DIFUSÃO – Neste momento está se desenrolando em Lisboa a Cúpula Ibero-Americana sobre “Inovação e Conhecimento”. Esse Bloco de países tem seu ponto mais fraco exatamente nos resultados medíocres no setor estratégico de P & D. E eu enfatizaria ainda outro problema dessa área, que merece nossa atenção: as dificuldades visíveis na difusão científica. Tanto na disseminação para especialistas – que interessa aos campos acadêmico e produtivo - quanto naquela voltada para a circulação de informação em ciência e tecnologia para o público em geral - que está na esfera de ação do setor educacional, no combate ao chamado “analfabetismo científico”. Aliás, um acordo na Cúpula em andamento, sobre a troca de informações científicas e tecnológicas entre os países-membros seria um passo importante. Mas temo que a tentação de se intrometer nos negócios de Honduras - a “vítima da vez” dos tiranetes sulamericanos – suplante a oportunidade de fazer algo realmente relevante para nossos países.
3. COMUNISMO REPUDIADO ! - Os checos comemoraram 20 anos da sua “Revolução de Veludo”, de 17 de novembro de 1989, que culminou em dezembro do mesmo ano com o fim da dominação soviética e do regime comunista na Tchecoslováquia. Em 1968 eu presenciara na UNESCO a rebeldia dos checoslovacos, alegres e descontraídos como nunca se vira antes, expressando opiniões que feriam os dogmas comunistas. Os sonhos de liberdade, porém, logo foram esmagados pelos tanques soviéticos. Foi o fim da “Primavera de Praga”, um experimento de “socialismo com face humana” comandado pelo líder do Partido Comunista da então Checoslováquia, Alexander Dubcek. O movimento representava o desabrochar da democracia atrás da Cortina de Ferro. Mudanças inéditas no bloco socialista foram adotadas no país: imprensa livre, Judiciário independente e tolerância religiosa. Dubcek introduziu reformas políticas e econômicas, com o apoio do Comitê Central. Mas os tanques soviéticos foram implacáveis. Lembro-me que os “intelectuais” da esquerda brasileira, sempre tão atuantes em favor da liberdade, não soltaram um simples gemido contra a crueldade comunista. Porém, em 1989 não teve jeito e o “paraíso” comunista foi enterrado para sempre. Por Praga passaram todas as grandes tiranias recentes e que lá ainda são visíveis. O nazismo, cujos traços genocidas – o gueto – encontram-se em Josefov, o bairro judeu. E o comunismo, muito bem retratado em Mala Strana, através de comoventes estátuas humanas de metal que se vão desfazendo à medida que caminham e o tempo passa. De forma genial, é assim que os checos rememoram a opressão comunista, a qual vai desintegrando a individualidade até sua destruição total. 4.OLIVEIRA DE BARREIROS – uma pequena aldeia portuguesa próxima a Viseu, de onde se avistam as neves eternas da Serra da Estrela. Situada na região do Rio Dão, famosa pelo vinho tinto de excepcional qualidade. Terra onde meu pai nasceu, em 1898; e de onde saiu para o Rio de Janeiro em 1916. Graças ao milagre da internet, descobri o blog “Oliveira de Barreiros, grandes amigos”, de autoria de Carlos Pereira e Armando Luís, em http://oliveiradebarreirosgrandesamigos.blogspot.com e fiz.contacto imediato, é claro... Nele, muitas informações para matar as saudades da terrinha querida até a próxima viagem, a oportunidade do reencontro de primos antes desconhecidos e muitas outras alegrias. Enfim, uma festa. Pena que seus vinhos – Pedra Cancela, Quinta de Reis, Vinha Paz – não cheguem ainda ao Brasil. Todos que apreciam o artigo iriam gostar muito...

26 de nov. de 2009

INSS, IPEA, EMPREGO, FILME 2012, DOPING

1. “CLOCHARD” OU “SANS PAPIER” ? – Trabalho, desde sempre, foi um valor fundamental em minha vida. Tive o exemplo de meus pais, imigrantes à busca de um lugar ao sol, trabalhando duro, cotidianamente, sem esmorecer, sempre com alegria. Ganhando seu dinheiro suado no pequeno comércio, economizando tostões para ter uma vida digna. Nada de grandes negócios - em que se ganha uma fortuna de comissão da noite para o dia ou se fica milionário explorando o contacto político certo ou ainda capitaneando uma ONG bem apadrinhada e recebendo farto dinheiro público. Não ! Sempre trabalhando duro... E assim foi minha carreira profissional. Antes, eu ganhara algum dinheiro dando aulas particulares de Matemática, Química e Geometria Descritiva, mas foi no início de 1959 que tive meu primeiro trabalho formal, como estagiário de Engenharia, na Cavalcanti-Junqueira, uma empreiteira poderosa da construção civil. No ano seguinte fui para a CONSULTEC, empresa pioneira de Consultoria, onde permaneci até janeiro de 1965. Atendendo ao convite de Roberto Campos, em fevereiro de 1965 fui dirigir o Setor de Desenvolvimento Social do IPEA, lá permanecendo até janeiro de 1972, com o cargo de Secretário-Executivo do Centro Nacional de Recursos Humanos. Tive uma breve passagem como Consultor pela FGV e convidado por Mario Henrique Simonsen assumi a Secretaria-Executiva do MOBRAL, em abril de 1972, de onde saí em março de 1981, quando já era Presidente do órgão. Fui Consultor da Presidência da Confederação Nacional da Indústria de 1972 a 1974. Em 1992/1993 trabalhei com Walter Clark na Fundação Roquette-Pinto e com ele mesmo tive mais tarde uma curta passagem pela MULTIRIO, empresa municipal que atua em tecnologias educacionais. De 2003 a 2006 fui Subsecretário-Adjunto da Secretaria de Estado de Trabalho e Renda do Estado do Rio de Janeiro, a convite do Secretário Marco Antonio Lucidi. A partir de 1981, desde que saí do MOBRAL, gerenciei minha própria empresa de Consultoria nos intervalos entre os cargos mencionados. Mas tudo isso foi apagado. Em 1999 comecei a cuidar de minha aposentadoria no INSS, que me foi concedida em janeiro de 2000, mas cujas pensões só passei a receber em dezembro de 2002. Até hoje espero pelos atrasados não pagos. Talvez por esse motivo, anteontem recebi uma singela cartinha do INSS, pedindo meu comparecimento urgente a uma de suas Agências e exigindo os originais de meus documentos, como se para eles eu não existisse: CPF, Identidade, Cartão do PIS/PASEP, Atestado de residência (recebi a carta em casa), Certidão de Nascimento ou Casamento etc. Mas mais estranho é que pediam também a Carteira de Trabalho e os Carnês pagos ao INSS – documentação que está desde 1999 com o próprio INSS, pois fez parte de meu processo de aposentadoria. Ontem fui lá e fiquei surpreso: eu não tenho Carteira de Trabalho, portanto nunca trabalhei; não tenho carnês, logo nunca descontei para o INSS e assim por diante. Meu processo sumiu, tenho que provar que entreguei os tais documentos sob as penas da lei e estou sujeito à perda da imerecida aposentadoria. Não sei como me definir: nestes 50 anos fui um eterno vagabundo, uma vocação de “clochard”, frequentador do “cour des miracles” ou sou um reles “sans papier”, um daqueles seres vagantes pelas igrejas de Paris, sempre gritando por seus direitos e de quando em vez candidatos aos “casse-têtes” da Polícia Francesa ? Nada disso, sou apenas mais um brasileiro vítima dos descaminhos da burocracia governamental e da sua vocação irrefreável para o “calote”, agora vergonhosamente oficializado pelo Congresso brasileiro, que nega a credores legítimos o pagamento dos precatórios. Porém podia ser pior: o INSS decretar, por exemplo, que eu não existo ou que já existi mas estou morto. E não seria a primeira vez que o INSS “desencarna” um pensionista inconveniente, que ousa querer receber suas pensões todo mês...
2. SER OU NÃO SER - Brincadeiras à parte, a sensação que me ficou do episódio foi um desagradável vazio... Até sonhei com ele. A burocracia sabe ser “kafkiana”, cria verdades próprias e indesmentíveis. Eu já tivera esse mesmo tipo de sentimento anteriormente. Por exemplo, quando publicaram um livro sobre os 40 anos do IPEA, fiquei sabendo que eu talvez nem tenha trabalhado lá. Desapareci como aqueles membros proeminentes do Partido Comunista que Stalin matava e apagava dos retratos oficiais. Afinal foram 7 anos de grande dedicação, 12 a 14 horas de empenho por dia. E sob minha direção foram publicados 140 trabalhos, alguns de grande envergadura e repercussão internacional como o Diagnóstico de Educação e Mão-de-Obra, o Diagnóstico de Educação Física e Desportos, os Planos Decenal do Governo Castello Branco, o do Governo Costa e Silva, o do Governo Médici (nos capítulos referentes a Educação e Mão-de-Obra, sempre coordenados por mim). Ainda em relação ao IPEA, li recentemente um artigo de uma Professora da UNICAMP afirmando que o Diagnóstico de Educação teria sido elaborado por mim e pelo Prof. Davi Carneiro. Davi Carneiro, excelente pessoa, não teve - nem pretendeu ter - qualquer participação no trabalho...Apenas utilizamos os dados de uma pesquisa de sua empresa sobre ensino superior, o que fizemos com dezenas de outros estudos e pesquisas de diferentes proveniências. Em relação ao MOBRAL, então, as mentiras que andam por aí são tantas e tão bizarras e despudoradas que às vezes não sei se devo rir ou chorar. Mas de uma coisa estou certo: um dia a verdade prevalecerá...Não sei é se vou receber esses atrasados do INSS !
3. PONTO PARA LUPI – Lula previu que o Brasil criará 1,3 milhão de empregos formais em 2009. Lupi, seu Ministro do Trabalho, “botou banca” e “chutou” algo entre 1 e 1,1 milhão de novos postos de trabalho. Nesse “duelo de competências” aposto em Lupi, que ficará mais próximo da verdade. Mas o que ambos deveriam ter em mente é que, anualmente, temos que criar entre 1,5 milhão e 2 milhões de empregos, para satisfazer a oferta de trabalho da população que chega à idade ativa. Vocês se lembram que Lula prometeu que criaria 10 milhões de empregos em 4 anos de seu primeiro mandato ? Já está no fim do segundo e nada... 4. HECATOMBE - Agora foi o Rodoanel de José Serra, que já vira naufragar outras obras de grande porte sob sua responsabilidade, como o Metrô. Dias antes, fomos surpreeendidos pelo “apagão do Lula”, em que sua ex-Ministra de Minas e Energia, Dilma Roussef, teve participação ativa. E o “apagão do PT” está dando filhotes, com pequenos blecautes em Ipanema, Leblon e outros bairros cariocas. Sob Dilma, a ANEEL já “garfara” 7 bilhões de reais dos consumidores brasileiros, por desconhecer em seus cálculos que a população brasileira cresce a cada ano. Com tais candidatos à Presidência, os desastres espetaculares do filme 2012 passam a ser possíveis, pelo menos em termos de Brasil...
5. DOPING – Surgiu uma nova e promissora arma contra esse crime: o passaporte biológico, que inclui um conjunto de parâmetros sanguíneos do atleta que podem ser posteriormente comparados com os resultados dos testes antidoping efetuados posteriormente. As descontinuidades paramétricas podem denunciar o doping. Os atletas são testados de surpresa e em qualquer hora e lugar. Ficará mais difícil essa prática condenável e desumana. Ainda bem !